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A Dianova vai participar como Oradora no 1º Congresso Internacional sobre Drogas & Dependências “Recuperar É Possível”, promovido pelo ISCE – Instituto Superior de Ciências Educativas, em parceria com Centre for Drug Misuse Research da Escócia.

Esta intervenção acontece no próximo dia 23 de Maio, entre as 14h30 e as 16h00, no âmbito de um congresso que tem como objectivo, entre outros, “promover o debate e reflexões fundamentados em conhecimentos científicos validados em experiências bem-sucedidas e adequadas à nossa realidade”, segundo o site da organização.

Neste sentido, Rui Martins (director de Comunicação da Dianova) e a Prof.ª Doutora Susana Henriques (Investigadora e Coordenadora do estudo no CIES-ISCTE-IUL) farão uma apresentação pública das conclusões preliminares do Estudo de Follow-up Científico “Trajectórias: da dependência à reintegração social 2009-2013”, referente ao caso de ex-utentes da Comunidade Terapêutica da Quinta das Lapas (Dianova).

O evento terá lugar nos dias 23, 24 e 25 de Maio, no Auditório do Campus Educativo do ISCE (Ramada, Odivelas, Portugal) e é destinado especialmente, de acordo com a organização, a professores do ensino básico, secundário, médio e superior, psicólogos, médicos, sociólogos, educadores sociais, animadores socioculturais, assistentes sociais e juristas.

“A crescente problemática das smartshops, drogas na Internet, álcool e cannabis”, “A Droga e os Media” ou “Regularização/Descriminalização/Legalização das Drogas” são alguns dos temas que intitulam os painéis de debate.

+ Informações em: http://cidp.isce.pt/congresso

Entrevista com George de Leon por Michele Bellasich

“A comunidade terapêutica é um modelo de tratamento eficaz e económico”

 

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George de Leon é um expert reconhecido internacionalmente na área do tratamento do consumo de drogas e como autoridade em investigação relacionada com Comunidades Terapêuticas como modelo de tratamento. Além de numerosas publicações científicas, De Leon prestou contributos notáveis de prática clínica e formação, tendo leccionado práticas em contexto de Comunidade Terapêutica a psiquiatras, psicólogo/as, enfermeiros/as, trabalhadores/as sociais, e a outro/as profissionais da saúde envolvidos em programas de tratamento. De Leon é director do Center for Therapeutic Community Research, em Nova Iorque, e professor e investigador de Psiquiatria na New York University. Michele Bellasich, representante da Dianova Internacional, encontrou-o e entrevistou-o na World Conference Of Therapeutical Communities, no Bali, no início de Novembro de 2012. Abaixo, segue-se o resultado dessa conversa.

 

Dianova: Represento [Michele Bellasich] a Dianova, uma rede presente em 11 países. Falo de uma rede peculiar: trabalhamos com governos diferentes, culturas distintas e diferentes legislações. Somos internacionais. Ao longo da sua apresentação [na conferência], lembrou os sistemas integrados orientados para a recuperação. Como lhe surgiu a ideia de implementar estes sistemas?

George de Leon: O Sistema Integrado Orientado para a Recuperação [ROIS] foi desenhado como uma resposta para a marginalização das Comunidades Terapêuticas enquanto modelo de tratamento. As pressões de financiamento fizeram reduzir drasticamente a duração do tratamento planeado, uma política contrária às provas científicas que documentam a relação entre a retenção e os resultados nos estudos sobre Comunidades Terapêuticas. O ROIS é um paradigma de uma abordagem de sistemas, que enfatiza as ligações subjacentes a uma parceria entre os serviços sociais e as organizações sociais ou privadas que disponibilizam essas respostas com vista a coordenar a transição e a assistência pós-tratamento.

Há um interesse crescente no ROIS. Desenvolvi esta abordagem, porque defendia uma assistência contínua para cada indivíduo em recuperação, particularmente aqueles que tinham saído da comunidade terapêutica. A maioria de prestadores de serviços já sabem muito sobre pós-tratamento e reintegração, por exemplo, contudo fazem-no habitualmente do ponto de vista de um programa particular ou de um programa de reintegração, e menos da perspectiva de um indivíduo ter que deixar o programa e continuar a sua recuperação num mundo separado do programa.

Comecei a aperceber-me que a formulação original da abordagem da Comunidade Terapêutica – que incluía a reintegração – podia ser uma base para conduzir políticas e desenvolver sistemas. Como é que se muda um sistema? Os nossos sistemas vigentes de tratamento de droga são geralmente desenhados para gerir a doença, não para promover a recuperação. Portanto, a ideia era construir uma política que considerasse como podemos reformular um sistema, que seja orientado para a recuperação, com um bom entendimento das fases de recuperação, dos locais onde os indivíduos estão a fazê-la e de que motivação necessitam para passarem à próxima fase.

 

Dianova: Considera que o modelo de tratamento em comunidade terapêutica é baseado em provas científicas?

George de Leon: Há muitas formas de abordar esta questão. Apesar de décadas de investigação na área das Comunidades Terapêuticas, e dos resultados, há legisladores, financiadores e mesmo vários cientistas a questionar ainda se a Comunidade Terapêutica é um tratamento baseado em provas científicas, em particular quando comparada com certos tipos de tratamentos farmacológicos ou tratamentos comportamentais muito limitados, que não são programas per se, mas antes modelos de tratamento de uma dimensão apenas.

O peso das provas directas de todas as fontes, durante vários anos, em vários países, sustenta a conclusão de que a Comunidade Terapêutica é um modelo de tratamento eficaz e económico, especialmente para as populações mais desafiantes – aquelas com um consumo de drogas excessivo e problemas psicológicos e sociais de quadro severo. Numa recente edição do International Journal of Therapeutical Communities – toda ela dedicada às provas científicas das Comunidades Terapêuticas –, escrevi um artigo, onde sumarizo estas provas, enquanto o resto da publicação se direcciona para outras áreas específicas, incluindo estudos comparativos, baseados nos custos e na eficácia das Comunidades Terapêuticas nas prisões nos Estados Unidos, e nas Comunidades Terapêuticas modificadas para pessoas com distúrbios mentais ou com problemas de policonsumo de drogas.

Todavia, a maioria dos críticos continua a formular a sua opinião nos estudos apoiados em amostras aleatórias apenas. Este é um sério problema epistemológico no campo da ciência. Uma ciência pode debater com outra o que é prova ou não. Claro que devemos fazer o esforço máximo de tentar desenvolver ensaios clínicos aleatórios, numa tentativa genuína de desenvolver mais provas da eficácia das Comunidades Terapêuticas – e isto poderia constituir um grande contributo para a investigação nas ciências sociais. Porém, é particularmente difícil, devido à dificuldade de encontrar critérios básicos que se prendem com este tipo de estudos. Não acho que seja correcto tentar fazer estes estudos, mas penso que temos que os fazer, simplesmente porque têm sido identificados como a nossa fraqueza. Se estivermos aptos para desenvolver ensaios controlados e aleatórios, podemos então apresentar uma prova definitiva da eficácia do modelo de tratamento das Comunidades Terapêuticas. Se não conseguirmos, teremos que mudar então toda a perspectiva da ciência, O que mudaria também a acepção de uma quantidade maciça de provas que temos acumulado ao longo dos anos.

 

Dianova: Na Suécia, onde trabalho, estamos preocupados com a actual situação dos nossos clientes, com os problemas físicos e psicológicos e a exclusão social. Há um processo e um programa, mas nós não podemos segui-lo (a Suécia não dispõe de programas de tratamento residenciais). Poderá haver uma nova forma de trabalhar no futuro?

George de Leon: A sua pergunta levanta uma série de questões. Um cliente que chega ao tratamento, geralmente, enfrenta múltiplos problemas, dispondo-se apenas de um curto período de tempo para tratá-lo. Este é um problema que todos enfrentam, em todas as abordagens de tratamento, incluindo as Comunidades Terapêuticas.

Depois de 50 anos de experiência em Comunidades Terapêuticas, sabemos que temos que definir adequadamente a subpopulação particular que estamos a tratar. Temos que saber que tipo de problemas um indivíduo que está a entrar no programa tem que enfrentar, além do consumo de substâncias: um problema psicológico e psiquiátrico, como uma esquizofrenia, ou um problema social, como a situação de sem-abrigo e uma educação deficitária. A nossa estratégia de tratamento deve focar-se na questão do consumo de drogas, enquanto se vai direccionando [o tratamento] também para outros problemas. Outro ponto crítico é que se tem que avaliar apropriadamente o subgrupo com que se está a lidar, com vista a proporcionar uma resposta de tratamento baseada na sua avaliação.

Outros elementos importantes são a duração e o ambiente do tratamento. Quando falo de programas residenciais, refiro-me ao ambiente, ao lugar onde o programa ocorre. Muito frequentemente, as Comunidades Terapêuticas utilizam ambientes residenciais, mas tal nem sempre ocorre. Devíamos, então, começar a pensar como definir o lugar ou o ambiente que poderão optimizar para o uso da Comunidade Terapêutica. A investigação tem sido muito clara a propósito desta questão: quando o cliente se depara com um problema grave de consumo de drogas, um ambiente residencial é o mais indicado – pelo menos no início do programa de tratamento – para ajudar o cliente a estabilizar. Este período de 3-4 meses, ajudar-nos-á a identificar a extensão dos vários problemas do cliente, enquanto se pensa no próximo pouso para este. Devemos construir uma abordagem do sistema, com vista a manter o paciente em continuidade, por exemplo utilizando uma comunidade terapêutica residencial modificada, seguida de um período de seis meses numa unidade ou regime ambulatório capaz de garantir apoio adicional a pessoas com problemas de saúde mental.

Entrevista a Fabio Bernabei [III]: Falar em consumo “responsável” da canábis é “desafiar o princípio da não-contradição”

 

A lei Portuguesa de descriminalização do consumo e de posse de drogas ilícitas em pequenas doses, elogiada internacionalmente.  E a “contradição” do consumo de drogas ”responsável”. Foram estes os principais tópicos abordados na recta final da entrevista a Fabio Bernabei. É com esta ideia com que o director do Osservatorio Droga e autor de “Cannabis Medica: 100 Risposte sull’uso terapeutico della Marijuana” conclui a conversa: “Para cada possível, ou suposta, necessidade terapêutica solucionada por algum composto de canábis, a ciência médica contemporânea dispõe de muitos fármacos baratos, seguros e eficazes”.

 

Dianova Portugal: Qual é a sua opinião sobre a lei portuguesa que descrimina [não legaliza] o consumo e a posse de todas as drogas ilícitas em pequenas doses? Um relatório do Cato Institute refere que o “quadro legal da descriminalização tem sido um sucesso retumbante, com lições evidentes que devem guiar os debates das políticas de drogas em todo o mundo”.

Fabio Bernabei: O Cato Institute convidou o Procurador Gleen Greenwald para conduzir um estudo da política da droga em Portugal. Depois de apenas três semanas em Portugal, Greenwald regressou aos Estados Unidos e escreveu um livro caracterizando a política de drogas portuguesa como um grande sucesso. Havia numerosos problemas com o estudo. Greenwald foi selectivo na categoria de “idade” que usou, ignorando em grande parte o grupo entre os 20 e os 24 anos no qual o consumo aumentou 50%.

O doutor Manuel Coelho, meu amigo e colega no Drug Watch International, presidente da Associação para um Portugal Livre de Drogas, numa análise aos dados do estudo, indicava que “se olharmos para os números relacionados com a prevalência na população total portuguesa, não há uma única categoria para as drogas, nem uma, que tenha decrescido desde 2001. Entre 2001 e 2007, o consumo de droga em Portugal aumentou cerca de 4,2% em termos absolutos”.

Portugal mantém-se como país com a mais elevada incidência de VIH relacionada com o CDI (consumo de drogas por via injectável) e é o único país a registar um recente aumento. Além disso, as investigações da OEDT de 2011 mostram uma situação estável no que diz respeito ao consumo de canábis em Portugal, mas um possível aumento no consumo de cocaína entre jovens adultos.

O país tem ainda altos níveis no que toca ao problema do consumo de drogas e da infecção por VIH e não demonstra desenvolvimentos específicos na sua situação relativamente à droga que o distinguiria claramente de outros países europeus que têm uma política diferente. Isto é sustentado pelo relatório do Gabinete da Política Nacional de Controlo de Drogas da Casa Branca (ONDCP) de 2011, que reviu o “Relatório Cato” e considerou-o falho de precisão.

 

Dianova Portugal: A NORML [Organização Nacional para a Reforma das Leis da Marijuana] tem um quadro de “princípios de consumo responsável de canábis”. Dentro das suas preocupações, mencionam regras como “apenas para adultos”, “não conduzir”, “resistir ao abuso” e “respeito pelos direitos dos outros”. Defende no seu livro que este “consumo responsável” é impossível. Porquê?

Fabio Bernabei: A NORML e algumas outras organizações bem organizadas passam a mensagem de que a canábis é uma droga relativamente inofensiva que podíamos legalizar. Mas, quando põem em relação esta droga psicadélica com a palavra “responsável”, estão a desafiar o princípio aristotélico da “não-contradição”. A canábis é uma substância psicadélica, que  altera a personalidade e as capacidades de julgamento do consumidor, por um curto período ou para toda a vida, mais e mais profundamente do que outras drogas, estimulantes ou sedativas. Há menos overdoses, mas danifica sempre a integridade do carácter da pessoa.

 

Dianova Portugal: Um dos reparos às suas “100 respostas” é um certo ponto de vista etnocêntrico acerca da biomedicina e do consumo da planta de canábis. Algumas pessoas argumentam que a canábis é uma das 50 ervas “fundamentais” da medicina tradicional chinesa. Como reage a estas críticas?

Fabio Bernabei: Nasci e vivo em Roma, uma cidade famosa na História por misturar todas as culturas e tradições de todo o mundo. Além disso, sou católico e rejeito qualquer atitude xenófoba ou racista, mas nem tudo dos tempos ancestrais é verdade.

Relacionar a marijuana médica com a Medicina Herbal Chinesa, ou outras tradições, é inapropriado. Porque os poucos documentos existentes e nunca verdadeiramente analisados reportam afinal o modo de fumo como um consumo médico [o mais comum na marijuana medicinal]. Mas, por cada possível, ou suposta, necessidade terapêutica solucionada por algum composto de canábis, a ciência médica contemporânea dispõe de muitos fármacos baratos, seguros e eficazes.

 

Dianova Portugal: Se publicasse uma segunda edição do “Cannabis Medica”, o que actualizaria ou mudaria no livro?

Fabio Bernabei:  Não aconteceram grandes mudanças ou uma actualização particular, mas gostaria de escrever algumas linhas sobre a minha experiência pessoal como um “alvo” dos “fundamentalistas” Pró-Canábis Médica. Penso que poderia ser útil para ficar bem claro nas nossas cabeças.

 

Nota: A entrevista integral a Fabio Bernabei vai ser publicada, em PDF, no Slideshare da Dianova Portugal em versão bilingue (Português e Inglês) até ao final desta semana.

Para já, as Partes 1 e 2 podem ser lidas aqui e aqui, respectivamente.

Entrevista a Fabio Bernabei [I]: “A canábis médica é uma questão de ideologia, não de compaixão”

Bernabei, jornalista de investigação e director da ONG Osservatorio Droga

 

Fabio Bernabei é representante nacional de Itália na ECAD – European Cities Against Drugs e director do OsservatorioDroga (Itália). Neste ano, publicou o livro Cannabis Medica. 100 domande e risposti, no qual que se opõe de forma veemente à legalização da marijuana para fins medicinais. A Dianova Portugal entrevistou o autor na sequência desta edição.

 

Dianova Portugal: No prefácio de “Cannabis medica”, diz-nos que decidiu escrever o livro devido a uma “experiência pessoal” [a sobrevivência a um cancro], num contexto de “reconhecimento da marijuana para fins medicinais”. O seu livro foi uma tentativa de desafiar e influenciar a opinião pública, afirmando que nem tudo é inevitável?

Fabio Bernabei: Não. Como sobrevivente a um cancro aprendi, entre outras, duas lições.

Primeiro, a pessoa doente é alguém vulnerável que tem que se respeitar e proteger, e não se deve tentar tirar quaisquer vantagens ideológicas da doença. Políticos e organizações que nos anos 1960 estavam a lutar por uma política proibicionista, agora tornaram-se adeptos de algumas terapias medicinais para doenças graves. Custa a acreditar. O Partido Radical Transnacional Radical, no seu manual “Os Radicais e as drogas”, assume a “estratégia medicinal” como uma das estratégias possíveis para alcançar a legalização das drogas. A estratégia menos radical, dizem eles, mas com um bónus:  sem pânico na opinião pública.

Segundo, as pessoas com cancro e outras doenças graves merecem o tratamento mais avançado, baseado na investigação médica mais inovadora, e não erva para fumar. Apenas um exemplo: em Itália o Sistema Regional de Saúde não tem dinheiro para oferecer uma radioterapia diária e generalizada nos hospitais e muitos, muitos, outros tratamentos básicos, mas alguns políticos preferem gastar centenas de milhares de euros do dinheiro dos impostos para oferecer charros de marijuana para fumar.

A canábis médica é uma questão de ideologia, não de compaixão.

 

DP: Considera que os italianos estão bem informados sobre o consumo da marijuana?

FB: Atente-se ao site da OEDT [Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, agência da União Europeia sedeada em lisboa]. Na página do “Perfil da Prevenção”, dedicada à Itália, as entradas relacionadas com a “Prevenção Universal” estão reportadas como uma longa lista de “Sem Informação”. É um bom retrato do nível de conhecimento dos italianos sobre marijuana e outras drogas ilícitas. A razão? Bem, quando se sabe o quão sérios são os políticos italianos, pode-se compreender melhor por que preferem usar o dinheiro público de muitas outras formas que não em políticas sociais efectivas.

 

DP: Como está a correr o debate sobre a canábis médica em Itália? Qual tem sido a reacção dos antiproibicionistas a este livro?

FB: Não há debate em Itália acerca da Marijuana Médica e as poucas informações disponíveis são apenas num sentido. Nos últimos dez anos foram publicados apenas dois livros italianos a contestar o uso médico da canábis: o meu, para um público geral, e outro para peritos, “Canábis e danos para a saúde”, escrito pelo professor Giovanni Serpelloni, director do Departamento Nacional de Política Anti-Drogas. Não são assim tantos para um assunto tão importante.

A reacção dos antiproibicionistas ao meu livro? Para muitos deles a canábis médica é uma espécie de tabu que ninguém ousaria desafiar. Portanto, eles reagiram às vezes de forma muito agressiva e indelicada. Outros, em contrapartida, escolhem fazer comentários irónicos acerca do tipo estúpido [eu] que não compreende que fumar marijuana vai salvar o mundo. Eu não me importo. Prefiro ouvir as vozes do Direito Internacional, as autoridades científicas oficiais e a minha consciência.

 

DP: Defende que, se a canábis médica fosse reconhecida legalmente e distribuída no Sistema Nacional de Saúde italiano, a produção, a venda e o consumo recreativo aumentariam. O que descobriu no âmbito das suas pesquisas acerca das causas e consequências da legalização?

FB: O Sistema Nacional de Saúde não pode disponibilizar qualquer substância sem a aprovação da AIFA (Agência Italiana de Medicamentos). Para evitar ensaios clínicos, o lobby pró Marijuana Médica inventou uma espécie de aprovação baseada num voto de uma maioria dos políticos locais na Assembleia Regional para diferentes doenças e terapias. Cada cabeça a sua sentença [Tot capita, tot sententiae].

Apenas para nomear uma, relativa ao aumento da criminalidade, no Canadá, o Supremo Tribunal do país reconheceu o aumento do mercado negro, a seguir ao reconhecimento político das propriedades “terapêuticas” da marijuana fumada. Os mesmos juízes que deliberaram em 2001 a favor de um “mercado regulado” de marijuana médica, argumentam agora que isto aconteceu devido à “burocracia” e à “qualidade” da marijuana médica do fornecedor monopolista do sistema de saúde canadiano. Sempre a mesma velha história.

Assim, depois de cerca de dez anos, o próprio Supremo Tribunal, a fim de combater o mercado negro, deu ordem ao Sistema de Saúde do Canadá para extinguir as limitações à plantação, à venda e ao consumo de marijuana médica. Aposto que o mercado negro vai explodir de novo, cada vez mais, como aconteceu sempre que as drogas ilícitas e perigosas foram promovidas como “miraculosas”.

 

Amanhã, na segunda parte da entrevista… O papel do Osservatorio Droga; Prevenção da toxicodependência e o projecto islandês; Drogas e direitos humanos; A máfia e o mercado negro; Jornalismo e activismo

Nota: Esta entrevista está dividida em três partes. Amanhã será publicada, aqui, a segunda parte. Quarta-feira, revelamos as perguntas e respostas finais. Uma versão em PDF da entrevista na íntegra será disponibilizada no Slideshare da Dianova Portugal a partir de Quarta-feira.

Relatório OEDT | Reintegração social de toxicodependentes em tratamento “frequentemente negligenciada”

 

Taxas altas de desemprego e baixo aproveitamento escolar dificultam a reintegração social dos consumidores de droga em tratamento na União Europeia. Esta é uma das principais conclusões de um relatório do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT) publicado hoje.  

Estima-se que, cada ano, na União Europeia, um milhão de consumidores de drogas esteja a receber alguma forma de tratamento para problemas relacionados com drogas. Em comunicado de imprensa, o OEDT considera que esta realidade se deve aos “investimentos consideráveis [realizados] desde os anos 1990”, altura em que se tornou numa prioridade na política das drogas “um melhor acesso ao tratamento”.

Por outro lado, mantêm-se as preocupações com a inclusão na sociedade das pessoas em tratamento, prática que segundo este observatório é “frequentemente negligenciada”.

Os últimos dados deste organismo da União Europeia alusivos aos pacientes que entram em tratamento revelam que mais de metade se encontra desempregado (56%).

O baixo aproveitamento escolar é também uma das tendências que afecta este “grupo vulnerável”, com 4 em 10 pessoas a terem completado apenas o ensino primário ou um nível escolar inferior.

O OEDT admite que “o tratamento desempenha um papel significante em ajudar os consumidores de droga a cessar, ou pelo menos a controlar, o uso de substâncias”, mas alerta que “negligenciar as necessidades sociais pode minar as possibilidades de uma recuperação de longo prazo”. Os últimos dados desta agência apontam ainda para cerca de 10% de clientes em tratamento que dizem não ter “alojamento estável”.

Estas informações integram o relatório “Reintegração social e Emprego: Provas e intervenções para Consumidores em Tratamento”, publicado hoje o OEDT, sedeado em Lisboa.

 

Um relatório para influenciar legisladores e profissionais da área

Este documento alista ainda um rol de “conclusões para a prática e política” desenhadas para auxiliar os legisladores e os profissionais que actuam na área da toxicodependência a desenvolverem “estratégias coerentes e inclusivas para promover a reintegração social”.

“Dado o papel crucial da reintegração social na limitação e na superação dos problemas relacionados com drogas, a longo-prazo, é bastante necessária uma melhor compreensão destas intervenções na Europa”, pode-se ler no comunicado.

O consumo de drogas agrava frequentemente as já difíceis condições de vida de indivíduos excluídos, fazendo dos esforços de integração um desafio real para a pessoa em questão e para aqueles que estão a prestar apoio. Este aspecto é particularmente relevante durante o actual período de dificuldades económicas na Europa, com elevados níveis de desemprego entre os cidadãos europeus mais jovens”, assinala Wolfgang Götz, director da OEDT, no âmbito da publicação deste relatório.

Dia Mundial da Saúde Mental | Panorama Nacional

Cerca de 450 milhões de pessoas sofrem de perturbações mentais em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. Destas, mais de 350 milhões padecem de depressão. Em Portugal, a prevalência de distúrbios mentais situa-se nos 23%, acima da média europeia. Hoje assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental, com críticas ao poder político, alertas de números e um congresso no Porto.

 

Há vinte anos que esta efeméride é celebrada globalmente para promover uma “discussão aberta sobre as perturbações mentais, os investimentos na prevenção, na promoção e nos serviços de tratamento”, pode-se ler no site da Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas António Palha, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria (SPP), em declarações à Agência Lusa, admite não notar mudanças desde então em Portugal, no que diz respeito às ofertas de reabilitação e inclusão social dos doentes mentais crónicos.

Esta é uma das considerações que está a marcar mediaticamente o Dia Mundial da Saúde Mental, no âmbito de uma crítica cerrada ao Plano Nacional de Saúde Mental. Palha afirma que este se encontra “distanciado das necessidades reais da população portuguesa” e lamenta que se tenham encerrado e desmembrado unidades de Psiquiatria sem garantias de alternativas.

O presidente da SPP defende que “o orçamento para a saúde mental é uma pequeníssima parte daquilo que deveria ser e, sem essa modificação qualitativa, é impossível fazer um plano coerente”. Criticando ainda o não cumprimento das leis e das linhas de orientação internacionais na área da saúde mental pelo Ministério da Saúde, bem como o atraso nos cuidados continuados e as lacunas da reabilitação em Psiquiatria, Palha refere-se ao Plano Nacional de Saúde Mental como “apenas ideologicamente fundamentado, sem possibilidades de resposta às necessidades concretas da população portuguesa nos dias de crise financeira de hoje”.

À Antena 1, a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria acusa ainda o Ministério da Saúde de ter tido pressa em fechar unidades asilares, como o Miguel Bombarda, em Lisboa, mas de ter perdido o rasto aos doentes mentais – entre os quais, esquizofrénicos – que estavam internados nesses hospitais psiquiátricos. A SPP compromete-se, entretanto, a levar a cabo um estudo para localizar estes doentes, porque suspeita que alguns possam estar pior do que estavam.

 

Mais de 30% dos alunos universitários do Porto consomem psicotrópicos

Entre hoje e sexta-feira, vai decorrer na Universidade Católica, no Porto, o III Congresso Internacional da Sociedade Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental (SPESM), onde este organismo vai apresentar um estudo sobre a saúde mental dos estudantes universitários do Porto.

Segundo a Lusa, um dos resultados desta investigação assinala que mais de 30% dos 1800 alunos universitários do Porto inquiridos consomem psicotrópicos e dizem não ter prazer nas coisas que fazem na vida.

O estudo que vai ser revelado no âmbito deste Dia Mundial da Saúde Mental foi realizado de 2010 para cá e aponta outras percentagens alarmantes: 44,5% dos estudantes inquiridos dizem consumir fármacos (20,8% de tranquilizantes, 7,7% de sedativos e 5,1% de hipnóticos). Isto num país onde a prevalência das doenças mentais é superior à média europeia (23% contra 17%), e onde a prevalência da ansiedade é de 16,5%.

O congresso da SPESM que se estende até sexta-feira no Porto, subordinado ao tema “Da Investigação à prática clínica em Saúde Mental”, pretende ser, segundo a organização, “uma viagem pela investigação realizada em saúde mental, pelos padrões de qualidade que se traduzem em ganhos em saúde para as pessoas e novas áreas emergentes que requerem cuidados”.

Este organismo defende que uma “primeira ajuda emocional” passa pelo envolvimento de toda a comunidade – colegas de trabalho e família –, o que pode dar resposta a doenças mentais leves.

Neste sentido, em entrevista à Agência Lusa, o psiquiatra Júlio Machado Vaz alerta que é um “erro” entrar “logo de cabeça” pelo psiquiatra e pelo psicólogo, quando começam a surgir sintomas como “demasiada” ansiedade, apatia ou tristeza. Sugere, antes, a consulta do médico de família: “O nosso médico de família, a equipa da nossa unidade de saúde familiar, ou do nosso centro de saúde (…) estão grande parte das vezes preparados e têm uma outra vantagem enorme que é: têm um conhecimento daquela pessoa ao longo do tempo”, alega o médico psiquiatra.

 

O que é considerado “Saúde Mental”?

A Saúde Mental refere-se a um amplo conjunto de actividades directa ou indirectamente relacionado à componente de bem-estar, incluída na definição da Saúde pela OMS: “Um estado de bem-estar físico, mental e social completo e não meramente a ausência de doença”. Entre as muitas categorias de doenças mentais contam-se as fobias, a ansiedade, o stress pós-traumático, o transtorno obsessivo-compulsivo, a doença bipolar, as doenças psicóticas e a depressão.

O médico psiquiatra Júlio Machado Vaz prefere caracterizar a saúde mental como “a capacidade de nos adaptarmos aos estímulos exteriores com o mínimo sofrimento e mantendo-nos a funcionar de uma forma adequada”.

De acordo com um estudo do SPESM, Portugal encontra-se “no topo da lista dos países da Europa com maior prevalência de doenças psiquiátricas, valores que ao longo da vida ultrapassam os 40%”.

iCancer: Campanha contra cancro que atingiu Jobs já está online e não é da Apple

iCancer é uma campanha global de angariação de fundos em regime de “crowdfunding”, com vista a prolongar a vida de pessoas com tumor neuro-endócrino. Nem o nome escolhido, nem a data de lançamento são inocentes. Steve Jobs, criador do iMac, morreu há um ano com um cancro deste tipo no pâncreas. As contribuições podem ser efectuadas até 16 de Novembro nas redes sociais.

A 39 dias do fecho desta campanha digital de “crowfunding”, 312 pessoas já doaram cerca de 45 mil euros. O objectivo final é angariar 2 milhões de libras [cerca 2,5 milhões de euros], o montante necessário para a primeira fase dos ensaios em humanos de um vírus modificado, actualmente “preso” num frigorífico na Suécia. Já foi experimentado com sucesso em ratos e pode vir a destruir um cancro cuja incidência está a aumentar a passos largos em todo o mundo e cujo diagnóstico muitas vezes acontece tardiamente.

“Não há punhos de camisa, não há concerto de rock e não há dinheiro”, adiantam os organizadores desta campanha global, a decorrer actualmente no Twitter, Facebook e You Tube. “Somos apenas nós, os cientistas, o vírus e tu”. A linguagem é directa e informal, a condizer com as tácticas do chamado marketing de guerrilha.

O escritor Alexander Masters e o jornalista Dominic Nutt garantem que montaram esta campanha em pouco mais do que uma semana. E o que estão a pedir aos cibernautas? Uma doação simbólica de 2 libras (cerca de 2,5 euros), perspectivando que um milhão de pessoas contribuam para cumprir o objectivo central do iCancer.

Os tumores neuro-endócrinos (NET) são cancros de glândulas que libertam hormonas como insulina, adrenalina e serotonina sob o controlo do sistema nervoso, podendo espalhar-se por todo o corpo. “São assassinos silenciosos”, alertam os promotores da campanha – Masters e Nutt, este último vítima desta doença. Masters, autor do bestseller “Stuart: A life Backwards” decidiu envolver-se na campanha iCancer – que tem como slogan “As pessoas antes do lucro”— quando foi diagnosticado um cancro deste tipo, incurável, a um amigo próximo.

“Estou profundamente frustrado. Há um tratamento potencial – um vírus que destrói este cancro em experiências de laboratório. Mas agora está num frigorífico num laboratório de investigação na Suécia à espera de ser testado em humanos”, afirma Masters.

A ideia é que, com o dinheiro angariado, a equipa de investigação por trás deste tratamento, liderada pelo professor Magnus  Essand, criador do vírus, possa partir para estes ensaios em humanos, e as farmacêuticas possam assumir o controlo do processo de desenvolvimento de um medicamento que prolongue “significativamente” a vida dos milhares de pessoas que padecem deste cancro.

E como se pode participar nesta campanha? O público é encorajado a seguir @iCancer no Twitter e “tuitar” detalhes sobre a campanha, disseminando-a, usando o canal #iCancer. Cada pessoa deve doar 2 libras esterlinas (cerca de 2,5 euros), usando os links para o site de “crowdsourcing”, a partir do feed do Twitter, da página do Facebook e do YouTube.

 

Uma campanha “inteligente” e/ou questionável?

“A campanha é inteligente ao capitalizar o aniversário da morte de Steve Jobs”, o que pode “atrair uma cobertura alargada nas redes sociais”, defende o portal ThirdSector (Reino Unido) que escolheu a iCancer como “A Campanha Digital da Semana”. O mínimo da doação “vai parecer viável para as pessoas a considerarem”, sendo que “o sucesso desta campanha poderá também levar a mais exemplos de angariação de fundos de crowdsourcing deste tipo”

Por outro lado, há a questão levantada pelo jornal britânico The Guardian. “Como deve ser o público envolvido na decisão do financiamento da investigação científica?” Directamente, através do “poder dos social media”, como defendem os organizadores da iCancer?

A economista Mariana Mazzucato escreve no portal The Entrepreneurial State que, as empresas privadas e os capitalistas de risco são muitas vezes relutantes em investir em tecnologias que não têm um caminho claro para um produto que venha a trazer lucros, preferindo o sector público suportar os riscos do Desenvolvimento numa fase inicial. Neste caso específico, o que se sucedeu é que o governo sueco não apoia ensaios clínicos em humanos.

“Os organizadores [desta campanha] estão a experimentar e a descobrir também. A campanha é realista no que toca às perspectivas de sucesso da terapia experimental, mas também tem uma inocência encantadora”, escreve Stephen Curry, professor de Biologia Estrutural no Imperial College, num artigo de opinião publicado ontem no The Guardian.

E onde fica Steve Jobs, o co-fundador da Apple e criador de uma série de invenções tecnológicas, nesta história? “O que teria feito Steve Jobs disto? Talvez esteja a sorrir com a abordagem inovadora e disruptiva adoptada pela campanha, enquanto se retrai com o nome iCancer, que imprudentemente imita os nomes de vários produtos Apple”, especula Curry.