Prostitutas de rua pensam mais em suicídio

Estudo feito no Grande Porto será apresentado para a semana, na China, num congresso mundial sobre a matéria. O psicólogo Alexandre Teixeira está de partida para Pequim. Vai ao congresso da International Association for Suicide Prevention explicar que as prostitutas de rua pensam duas vezes mais em suicídio do que os jovens adultos. A comunicação resulta da tese de mestrado que defendeu, no ano passado, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.

Bateu as ruas do grande Porto, com técnicos de organizações que lidam com trabalhadoras do sexo, até já não haver portuguesas que com ele quisessem conversar. Metade das 52 entrevistadas conhecia alguém que já tentara o suicídio. Um quarto tinha familiares com histórias dessa natureza. Quase metade já o tentara também. À volta de 30 por cento já o tinham feito três ou mais vezes.

Não encontrou estudos semelhantes, apesar da sobreposição de factores de risco como o estigma, a violência familiar, a violência laboral, o uso de drogas, a doença mental. “Os que estudam suicídio pouco querem saber de prostituição; os que estudam prostituição pouco querem saber de suicídio”, nota. “As prostitutas de rua já estão no lugar mais baixo da hierarquia das mulheres, no lugar mais baixo da hierarquia das prostitutas. Estudar isto do suicídio é reforçar o estigma: além de prostitutas, ainda se matam.” Continuar a ler

Mais suicídios do que mortes por HIV no início do século

A década de 1990 inverteu a tendência de aumento de suicídios nos anos 80, ao baixar a média anual de 880 para 741 óbitos, mas desiludir-se-ia quem viu ali o início de uma sociedade menos suicida. O arranque do século XXI bateu novos recordes e, em toda a década 2000-2009, o Instituto Nacional de Estatística (INE) registou uma média anual de 972 suicídios (total de 9721), um agravamento de 31% face aos anos 90. O ano 2000 até correu bem, só com 525 suicídios. Mas, logo em 2002, foi batido o recorde de 1984 (1033 suicídios), com 1212 casos. Em 2003 e 2004 houve, respectivamente, 1155 e 1205. Ao ligeiro abrandamento de 2005 e 2006, seguiram-se mais três anos com números superiores a um milhar. O século XX só tivera um ano (1984) com mais de mil suicídios, segundo o INE, que ainda não publicou a contagem de 2010. A título de comparação,

note-se que na primeira década deste século se registaram, em Portugal, mais mortes por suicídio do que atribuídas ao HIV (8610). Em trabalho que aborda os números do século XXI, o psiquiatra Carlos Braz Saraiva aponta 2002 como o ano da “viragem para os dois dígitos da taxa de suicídio”. E destaca: “Pela primeira vez, as mulheres ultrapassaram os 200 suicídios e, também pela primeira vez, atingiu-se a cifra de 60 suicídios em jovens”. Neste quadro, frisa a “marcada e persistente assimetria entre o Norte e o Sul”, com taxas reduzidas acima de Santarém e elevadas abaixo. Uma “discrepância muito peculiar, mesmo a nível internacional, para um país pequeno como Portugal”, observa. Aponta causas como o isolamento, o envelhecimento populacional, baixos níveis de instrução, baixa nupcialidade e divórcios, desemprego, pobreza, baixa religiosidade, desesperança, alcoolismo, depressão, falta de apoios médico-sociais e personalidade melancólica.

Fonte: Jornal de Notícias