“Está o futuro da saúde para além da nossa imaginação?”

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Esta pergunta titula um artigo publicado, ontem, no blogue oficial do Fórum Económico Mundial, a decorrer neste momento em Davos, na Suíça. Neste post, David Gleicher e Darko Lovric, respectivamente gestores sénior e de projecto no Fórum, defendem que será necessária uma alteração na maneira como os serviços de saúde têm sido promovidos e prestados. E essa mudança, segundo as suas convicções, passará por “onde trabalhamos”, pelos “produtos que compramos” e “pelas cidades onde vivemos”. Abaixo, segue o artigo em questão, em português, que em algumas ocasiões dialoga com o recente relatório Sustainable Health Systems: Visions, Stategies and Scenarios.

 

“Antes de Davos se ter tornado o que é hoje, era conhecida como um sanatório. Com o seu ar limpo e sossego, Davos era um destino onde os enfermos iam vencer a sua doença num mundo pré-antibiótico. Nos dias de hoje, o cenário em Davos é muito diferente e, das centenas que participam nas reuniões anuais do Fórum Económico Mundial, poucas estarão conscientes do seu passado.

As inovações na saúde, dos antibióticos à genética, têm continuado e irão continuar a alterar o nosso mundo de uma forma surpreendente. Tal como os enfermos em Davos há cem anos teriam dificuldade em imaginar os nossos actuais sistemas de saúde, as nossas próprias suposições sobre o que é possível podem estar a cegar-nos e a impedir-nos de imaginar os sistemas de saúde do nosso futuro. Prolongando os nossos prossupostos e alargando o que pensamos possível, podemos melhorar a tomada de decisões no presente. Esta é a essência do trabalho do Fórum quanto à prevenção estratégica.

 

No Fórum Económico Mundial de 2012 estiveram envolvidos em workshops e entrevistas mais de 200 decisores de alto nível do sector público e uma vasta série de organizações do sector privado. Em cada caso, os participantes discutiram as incertezas que podem reconfigurar o contexto nos quais os sistemas de saúde se formam e operam. Foram identificadas, como críticas, seis incertezas:

Atitudes rumo à solidariedade: A solidariedade – a disponibilidade dos indivíduos para partilhar os riscos para a saúde da população – aumentará, decrescerá ou será condicionada por vários factores?

Origens da governance: O poder e a autoridade estarão predominantemente localizados a nível local, supranacional ou nacional?

Organização do sistema de inovação na saúde: Virá a inovação de dentro ou de fora do sistema existente? Qual será o nível de financiamento? Que tipos de inovação serão produzidos?

Acesso à informação de saúde: Quem tomará a responsabilidade de recolher e analisar os dados relativos à saúde? As pessoas darão o seu consentimento à utilização dos seus dados pessoais?

Influência sobre os estilos de vida: Até que ponto será aceite e implementada a influência activa sobre os estilos de vida individuais?

Cultura “saudável”: Viver saudavelmente será uma escolha para uma minoria, uma obrigação cívica ou uma aspiração?

 

Estas incertezas críticas revelam-nos que os sistemas de saúde do futuro podem e serão muito diferentes da forma como pensamos a saúde nos dias de hoje.

O novo relatório do Fórum Económico Mundial, Sistemas de Saúde Sustentáveis: Visões, Estratégias e Cenários, explora três exemplos de como estas incertezas podem moldar os sistemas de saúde no futuro.

Na “Saúde Integrada”, as fronteiras da indústria da saúde são redefinidas. As corporações providenciam novos produtos e serviços, à medida que os mercados se liberalizam, os governos cortam nos serviços públicos e um novo sentido de solidariedade condicionada emerge.

 

No “Novo Contrato Social”, os governos são responsáveis por conduzir a eficiência do sistema de saúde e por regular as organizações e incitarem as pessoas a perseguirem uma vida saudável.

 

Num modelo de “Indivíduos Super-Empoderados”, os cidadãos usam um conjunto de produtos e serviços para gerir a sua própria saúde. Entretanto, as corporações competem por este mercado lucrativo e os governos tentam abordar as consequências.

As maneiras como promovemos e providenciamos actualmente os serviços de saúde e os efeitos na sociedade são insustentáveis e terão que mudar.

A saúde não pode ser mais pensada per se. As previsões mostram-nos que o futuro assentará menos num comprimido mágico e mais numa mudança no modo como compreendemos e pugnamos pela saúde na sociedade. A saúde é criada para além dos confins das paredes do hospital e dos gabinetes dos doutores. Está a ser criada nos locais onde trabalhamos, nos produtos que compramos e (cada vez mais) nas cidades em que vivemos. O relatório revela que podem ser alcançadas novas perspectivas para sistemas de saúde sustentáveis quando os agentes dos ministérios do governo, as indústrias e a sociedade civil, unidos, estiverem preparados para testar as suas suposições nucleares.

Apesar dos seus melhores esforços e recursos, os líderes mundiais não podem prever ou adivinhar exactamente o que o futuro trará, mas estando abertos a todas as possibilidades e desafiando as mentalidades viradas para o “business-as-usual” podem tomar melhores decisões – decisões que irão conduzir-nos rumo a um futuro mais saudável.”

 

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Tendências | Reino Unido: A generosidade é para os mais velhos?

No Reino Unido mais de metade das doações caritativas é realizada por pessoas acima dos 60 anos. As pessoas com menos de 30 anos são seis vezes menos generosas do que aquelas acima dos 60. Pelo menos é o que revela um recente estudo da Universidade de Bristol, realizado a meias com a Charities Aid Foundation (CAF).

 

Estas duas instituições analisaram as doações caritativas efectuadas entre 1978 e 2010 no Reino Unido, com base em faixas etárias e datas de nascimento dos doadores.

E o que descobriram? Em 2010, por exemplo, 32% das pessoas acima dos 60 anos inquiridas tinham feito doações caritativas nos últimos quinze dias, o dobro face às pessoas com menos de 30 anos (16%). “Os jovens não estão a conseguir manter os padrões de generosidade dos seus antepassados”, assinala o relatório.  O jornal The Guardian ilustra os dados deste estudo através de gráficos.

O próprio título do relatório em questão põe a tónica no alarme: “Mind the Gap” (“Cuidado com o fosso”, uma alusão à popular mensagem escutada a toda a hora no metropolitano londrino). A CAF alerta para a “bomba-relógio geracional” no campo da caridade e para a “perda de hábito de dar”, dirigindo-se aos mais jovens. É uma “crise de doações de longo-prazo”, acrescenta.

O relatório dá conta inclusive dos níveis de generosidade: os britânicos com mais de 60 anos são seis vezes mais generosos do que os sub-30. Há trinta anos, por sua vez, esta diferença era menor: os sub-30 eram três vezes menos generosos do que os maiores de 60. Por exemplo, os britânicos acima dos 75 doam 10 vezes mais (como proporção dos seus gastos totais) do que os britânicos com menos de 30 anos.

O relatório refere, neste sentido, que “os mais recentes grupos de pensionistas estão a disfrutar de padrões de vida mais elevados do que os seus predecessores”.

Por outro lado, o valor das doações de natureza caritativa tem crescido. Entre 1978 e 2010, a média das doações passou de 4,57 euros para os 11,49 (em termos reais). Em 2010, por exemplo, entre a população total, a média de doação semanal no Reino Unido era de aproximadamente 3,1 euros.

Nesta investigação é salientado que as tendências sócio-económicas e demográficas devem ser consideradas para interpretar estes números. De acordo com os censos de 2011, 16% da população total de Inglaterra e Gales tem acima de 65 anos.

O relatório propõe acções urgentes, como levar as doações para plataformas online para atrair os mais jovens para esta prática.

 

“O que mudou?” ou as críticas de Ed Howker ao Estado, aos mercados e às charities

“Por que é que há um fosso geracional nas doações de caridade?”, pergunta Ed Howker no título do um artigo de opinião publicado na edição do passado domingo no jornal britânico The Guardian. O co-autor do livro “Jilted Generation: How Britain Has Bankrupted Its Youth” lembra que os jovens são “apenas os últimos participantes numa tendência – as percentagens de donativos das famílias com membros com menos de 50 anos entraram em declínio há décadas”. O estudo, por exemplo, refere que 32% dos agregados familiares contribuíam para a caridade em 1978, enquanto que em 2010 o valor situava-se nos 27%.

“O que mudou?, questiona Howker. “Chegámos a um tipo de sociedade em que o governo necessita de voluntários para substituírem o lugar dos funcionários públicos remunerados, enquanto as instituições de solidariedade pagam a pessoas para organizarem doações”.

O texto termina com o dedo na ferida, um dedo apontado ao Estado e ao Mercado: “Convidamos os jovens a depositarem a sua fé na caneta de um burocrata ou na mão do mercado invisível, mas não na sua própria boa consciência. Entretanto, os mais velhos dão cada vez generosamente para a caridade, porque suspeitam que não podem contar nem com o sistema, nem mesmo com a combinação de ambos para resolver os problemas do mundo [‘enquanto lês isto e hesitas’]”.

Chapitô, Beira Serra e “Castreja” entre vencedores do Prémio António Sérgio

“Boas Práticas”, “Estudos e Investigação” e “Trabalhos Escolares” foram as categorias em destaque na primeira edição do Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio, cuja cerimónia de entrega ocorreu, nesta segunda-feira, no âmbito das “Conferências de Economia Social”, na Fundação Calouste Gulbenkian, com a presença dos vencedores e jurados.

 

A Beira Serra, a Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa e o Chapitô foram distinguidos ex aequo na primeira categoria. A primeira pela criação do Gabinete de Intervenção Social das Nogueiras, em Teixoso, Covilhã, um complexo destinado à “capacitação do potencial humano duma população particularmente fragilizada e estigmatizada, promovendo a igualdade de oportunidades e o empreendedorismo social”. A segunda por práticas “relevantes” no âmbito do apoio domiciliário a pessoas com necessidades especiais, sem recurso a internamentos ou institucionalizações. E o terceiro pela capacidade de “inclusão social através da formação dos jovens e da difusão do capital circense na sociedade”, segundo os critérios do júri.

“Vida e morte numa mina do Alentejo – Pobreza, Mutualismo e Provisão Social – O caso de São Domingos na primeira metade do século XX” – tese de mestrado de Miguel da Conceição Bento, formado em Serviço Social – venceu o galardão na categoria de “Estudos e Investigação”. A tese, que será publicada entre Outubro e Novembro, debruça-se sobre a “diversidade e dinâmica mutualista formal e informal no quadro da providência na sociedade portuguesa”.

Na categoria dos “Trabalhos Escolares”, venceu um projecto comunitário que envolveu a comunidade educativa do Agrupamento Vertical das Escolas de Briteiros, Guimarães. A constituição da “Castreja – Cooperativa de Apoio Social e Cultural” e de uma loja solidária são os principais activos alcançados por um grupo de cerca de 50 voluntários que servem oito freguesias. Os jurados salientaram nesta iniciativa a aproximação de pais, alunos, professores, juntas de freguesia, o centro de saúde e a rede social, que lhes proporcionou “diversas dinâmicas comunitárias”. O Agrupamento de Escolas da Cidade de Castelo Branco e o Agrupamento de Escolas de Teixoso receberam uma menção honrosa pelos projectos “Defender o Ambiente, Ser solidário” e “Palco IEF – Projecto de Formação em Teatro e Cidadania”, respectivamente.

Integraram o júri Eduardo Graça, presidente da CASES, Joana Branco Lopes, membro da Associação Par – Respostas Sociais, João Menezes, coordenador do Gabinete de Apoio ao Bairro de Intervenção Prioritária da Mouraria, Jorge de Sá, vice-presidente do CIRIEC Portugal, José Hipólito dos Santos, sócio-economista, Luísa Valle, directora do Programa Gulbenkian de Desenvolvimento Humano, e Maria da Conceição Couvaneiro, membro do CIRIEC Portugal.

Este prémio anual da CASES tem como objectivo a “promoção do conhecimento e reconhecimento público do sector da Economia Social e das suas organizações, em particular, entre a juventude”, e é dirigido a pessoas singulares e colectivas.

Conferências de Economia Social: “A outra economia não é uma utopia, já existe”

O homenageado Paul Singer nas “Conferências de Economia Social” (Foto: CASES)

 

Representantes da economia social do país estiveram ontem, em Lisboa, a partilhar feitos e desafios do sector. A sustentabilidade das cooperativas, misericórdias, mutualidades, IPSSs e associações, e as respectivas relações com o Estado, a Comissão Europeia, as leis e a economia privada, estiveram no centro das apresentações públicas e da discussão. Ainda houve tempo para a atribuição do primeiro Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio.

“Parece uma utopia, mas não é”. Foi assim que Paul Singer começou por enaltecer “uma outra economia que já existe” no arranque das “Conferências de Economia Social”, organizadas pela CASES – Cooperativa António Sérgio. Uma economia que se desenvolve nos “interstícios das contradições do capitalismo”, uma alternativa à actual crise, acrescentou. Singer, nascido há 80 anos na Áustria, economista, professor e que actualmente “está” (não “é”) secretário nacional da Economia Social do Governo brasileiro tinha acabado de ser homenageado na abertura do certame.

Foi fundador do PT (Partido Trabalhista) brasileiro durante a ditadura militar, fez parte de uma geração que se desiludiu com o Socialismo – aplicado de cima para baixo –, que defendeu. Hoje Paul Singer acredita que as alternativas à crise do capitalismo, ao “capital financeiro hegemónico”, está, mais do que num regresso ao “keynesianismo” (que elogia), na economia “solidária”, como prefere chamar à actividade do terceiro sector à qual se tem dedicado. Optimista, citou casos de conglomerados de cooperativas de sucesso existentes no Brasil, em que as diferenças entre o empregador e o empregado estão atenuadas, e o do caso da emancipação dos catadores de lixo no seu país. No fim da sua intervenção, o homenageado parafraseou o filósofo e educador Paulo Freire: “Ninguém emancipa ninguém, emancipamo-nos em conjunto”.

 

“Famílias da economia social” devem endossar “lobby

Foram especialmente sessões informativas sobre o papel e os últimos desafios das IPSSs e das misericórdias, o Fundo Social Europeu e o caso bem-sucedido do fundo-confederação canadiano FondAction que passaram pelo auditório da Calouste Gulbenkian na segunda-feira. Mas também houve desabafos e críticas à legislação e à classe governativa, ali representada pelo secretário de Estado da Solidariedade e da Segurança Social Marco António Costa. Na plateia e em cima do palco.

Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas e ex-deputado, foi o mais contundente com aquilo a que chama “a atitude errática” dos governos no pós-25 de Abril. Depois de afirmar que o país precisa urgentemente do terceiro sector, criticou a “demagogia” dos políticos que defendem que o Estado apoia o sector social. Lemos opta pelo jogo de palavras para concluir que “o Estado se apoia no sector social” e que dificulta o caminho dos que “querem e sabem fazer, bom e barato”. A tónica do seu discurso centrou-se na ideia de que a auto-sustentabilidade das misericórdias depende das políticas públicas, que deviam ser desenhadas pelo Estado, mas também pelas organizações sociais como parceiros empenhados no terreno. O presidente da UMP lamentou, neste contexto, que as misericórdias estejam a ser condicionadas na prestação dos cuidados continuados.

Uma das ideias mais repetidas ao longo das várias intervenções foi a de que o terceiro sector devia fazer mais lobby, com “regras”, para se fazer ouvir melhor junto do poder político – executivo e legislativo. Para ganhar visibilidade, disseminar valores, participar na concertação social, influenciar a alteração da legislação para o sector – foram-se complementando, uns aos outros, os intervenientes que defendem uma maior aproximação das “famílias da economia social” (expressão sugerida por alguém na plateia).

Uma das incitadoras do lobby das instituições da economia social foi Rosa Maria Simões, a presidente do Instituto de Gestão do Fundo Social Europeu, que apresentou aos presentes o Quadro Estratégico Comum 2014-20020 e as áreas prioritárias de apoios da Comissão Europeia para este período (educação, emprego, alterações climáticas e energia, investigação e desenvolvimento, e pobreza e exclusão social) e os objectivos para a Europa de 2020.

Na plateia fizeram-se ouvir questões sobre a falta de apoio à capacitação de profissionais do sector social, a fraude das “falsas cooperativas”, a inadequação de alguma terminologia que exclui projectos na área da agricultura de alguns concursos do sector social, ou as dificuldades de financiamento de algumas organizações sociais impostas também por leis desadequadas. É dado, neste contexto, o exemplo de um acórdão do Tribunal Constitucional que não permite a gestão de uma farmácia por uma IPSS enquanto prestadora de serviços a terceiros.

Afirmando que a sua visão não é a de um Estado “mandatário”, mas “participativo” e “cúmplice”, o secretário de Estado Marco António Costa ressaltou a importância do terceiro sector em época de crise, em que o “comprometimento activo” deve caber a todos. A inovação social, as leis de bases a serem aprovadas na Assembleia da República para o sector, a cooperação entre o Estado a nível local e os representantes da economia social e solidária e o desenvolvimento em curso da legislação em torno das “empresas sociais” foram os principais destaques do discurso institucional.

 

O caso da FondAction

 

O canadiano Leópold Beaulieu, da FondAction, veio falar da sustentabilidade da organização que preside

 

Do Quebec, esteve presente Léopold Beaulieu, presidente da FondAction – Fundo de Desenvolvimento da Confederação dos Sindicatos Nacional para a Cooperação e Emprego. O caso de sustentabilidade social bem-sucedido deste fundo criado por iniciativa sindical em 1996 foi a razão principal desta conferência.

O modelo deste fundo que apoia vinte organizações locais, nacionais e internacionais assenta, segundo Beaulieu, em “novas formas de gestão mais participativas”, numa “economia mais verde”, que aposta no desenvolvimento sustentável, na prestação regular de contas, no regresso ao “fundamento das finanças” ligado à economia real “com perspectiva de longo prazo”, numa “governance” que dá atenção a todos os “stakeholders”. Beaulieu lembra, neste sentido, o relevo do sector financeiro associativo, das cooperativas de créditos aos bancos éticos, passando pelas instituições de microcrédito e os modelos de propriedade colectiva que dão respostas às “necessidades das pessoas”.

“Conferências de Economia Social” em Lisboa a 10 de Setembro

 

Na próxima segunda-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, discute-se a construção da sustentabilidade na economia social, “do conceito à prática”. Entre os conferencistas estão nomes como Paul Singer, Lino Maia e Léopold Beaulieu. O prazo limite de inscrições para o certame organizado pela CASES é hoje.

A abertura da sessão tem início às 10 da manhã, com uma homenagem a Paul Singer, secretário nacional da Economia Solidária do Governo do Brasil, que estará presente em Lisboa para responder à pergunta “Economia Social e Solidária: uma alternativa em tempo de crise?”. Co-fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), Singer é economista e tem desenvolvido projectos no âmbito do desenvolvimento local, defendendo os “bancos comunitários” como instrumento de erradicação da pobreza.

O orador que se segue é o Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, para apresentar a comunicação “As IPSS num contexto de crise económica”, antes do primeiro debate do dia. Marco António Costa, secretário de Estado da Solidariedade e Segurança Social, estará presente na discussão. Ainda de manhã, do programa consta a entrega do “Prémio Cooperação e Solidariedade – António Sérgio”.

À tarde, o segundo ciclo de conferências inclui quatro comunicações, entre as quais uma sobre a economia social no âmbito do Fundo Social Europeu (FSE), proferida por Rosa Maria Simões, presidente do Instituto de Gestão do FSE, e outra sobre “o papel da inovação financeira na globalização”, pela voz de Jorge Nascimento Rodrigues, autor do livro “Como o capital financeiro conquistou o mundo” e colaborador do jornal “Expresso”.

Antes do debate final, o canadiano Léopold Beaulieu, presidente da FondAction do Grupo Desjardins, vem expor o caso da organização que preside como exemplo de sustentabilidade na economia social. Manuel Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas, por sua vez, vai falar sobre políticas públicas para o terceiro sector, auto-sustentabilidade e as misericórdias portuguesas.

O evento é organizado pela CASES – Cooperativa António Sérgio para a Economia Social – e acontece no âmbito dos trabalhos preparatórios para a 1ª Convenção Nacional da Economia Social, a decorrer em Janeiro de 2013.

As actividades decorrem no Anfiteatro 3 da Fundação Calouste Gulbenkian, a partir das 9h30. As inscrições fecham hoje, dia 6 (através de e-mail para cases@cases.pt).

Rede Dianova em campanha de solidariedade com Dianova Nicarágua

A Rede Dianova lançou uma campanha em Itália e Portugal para angariação de fundos (em bens e equipamentos) para os 400 estudantes acolhidos todos os anos pelo Centro de Educación Integral Esther Del Río-Las María, na Nicarágua. O resultado desta campanha ultrapassou os 50 mil euros.

Entre Dezembro e Junho de 2012, a Dianova Portugal e a Dianova Itália levaram a cabo uma campanha de Solidariedade a nível angariação de fundos (bens e equipamentos) para o colégio Esther Del Río Las Marías, gerido pela Dianova na Nicarágua. Nesta campanha foram recolhidos, entre outros, materiais educativos, produtos de higiene e de primeira necessidade, roupa e calçado, com um valor estimado em mais de 50 mil euros. Um contentor marítimo sairá a partir do porto italiano de Génova, tendo como destino Nicarágua.

O centro educativo Esther Del Río Las Marías dedica-se a melhorar as condições de escolarização e o futuro das crianças em zonas rurais da Nicarágua, as mais afectadas pela pobreza e pela violência endémica. Aprovado pelo Ministério da Educação de Nicarágua e afiliado à rede de Escolas Associadas da UNESCO (Rede PEA), o centro educativo Esther Del Río Las Marías  oferece uma educação gratuita aos mais desfavorecidos. Além disso, os estudantes em regime de internato têm um apoio integral em termos de habitação, alimentação, materiais educativos ou de acompanhamento psicológico e de saúde. Para mais informações visite o site http://www.dianovanicaragua.org.ni/.

Parceira oficial da UNESCO e ONG com Estatuto Consultivo Especial junto do Conselho Económico e Social das Nações Unidas, a Dianova é conformada por uma rede de Organizações Sociais, presente em onze países da Europa e Américas. A Rede Dianova desenvolve programas e projectos inovadores nas áreas da educação, juventude, prevenção e tratamento das toxicodependências, inclusão social bem como em áreas de desenvolvimento sociocomunitário e formação.

Boston, uma cidade em modo “networking”?

Imagine que vive numa cidade com um terceiro sector omnipresente, altamente competitivo, onde cada organização se encontra sob a pressão constante de competir para aumentar a sua influência na comunidade, com financiamentos limitados e líderes hostis entre si.

Essa cidade pode ser Boston, a maior cidade do estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. Ou melhor, esta cidade podia ser Boston, até a Barr Foundation – habituada a actuar nas áreas da educação e das artes – começar a propor, a partir de 2004, aos directores executivos de algumas destas organizações sem fins lucrativos um programa sabático de três meses com os seus próprios concorrentes, longe da sua área de acção. E “longe” pode significar o estado de Chiapas, no México, mas também Haiti, Brasil,  Zimbabué ou África do Sul.

O objectivo da Barr Fellows Network, através deste programa de transformação social, é reduzir o sentido de competição e desconfiança entre os líderes e respectivas organizações, de modo a potenciar a cooperação entre agentes de mudança da cidade e, consequentemente, melhorar a qualidade de vida de Boston e da sua população.

Os executivos da Barr Foundation notaram, pela sua experiência e pelo estudo de outras iniciativas colectivas, que a maior barreira ao impacto social reside geralmente a nível individual. Apostaram, assim, num projecto para revigorar os líderes longe do seu habitat natural e alimentar relações individuais. Oito anos depois de lançado o Barr Fellowship, e apesar das reticências de vários participantes na fase inicial do período sabático, a ideia de que as redes de mudança social são animadas não pelas organizações, mas pelas pessoas, ganhou sustentação prática.

Em 2010 vinte e quarto líderes rumaram a Chiapas, México, zona montanhosa, rica em florestas tropicais e habitada por populações indígenas consideráveis. Desligaram-se das suas organizações por completo, dos seus telemóveis e dos seus papéis habituais. Inicialmente, as relações entre estes eram distantes ou nulas, noutros casos hostis. O plano de actividades incluiu encontros com activistas locais e líderes indígenas, que construíram escolas e clínicas para a população e governam 32 municípios sem apoio do governo mexicano. Os visitantes ocidentais foram inteirados de como é praticada a mudança social em situações de extrema pobreza e risco político, situação que faz rever as suas perspectivas de organizações sem fins lucrativos nos Estados Unidos.

Gibrán Riviera, mediador do Interaction Institute for Social Change, comenta o ambiente sentido nestas jornadas intensivas e disruptivas no hemisfério sul: “As relações mediadas por identidades organizacionais são frequentemente limitadas ao formal e ao transacionável. Esta jornada de aprendizagem [conduziu os líderes das organizações presentes] a uma ligação mais profunda e mais humana”. Os riscos desta operação eram elevados: relações que punham em causa crenças pessoais, questões ideológicas, de etnia e classe. Pat Brandes, consultor estratégico da fundação que engendrou esta rede, diz que esta experiência “contracultural” desbloqueou o desconforto. “O controlo foi substituído pela confiança. Os líderes estão a ultrapassar fronteiras (…). Esta é uma aprendizagem crítica para a nossa sociedade multirracial e multiétnica”.

Este “empurrão” dado pela Barr Foundation já teve alguns efeitos práticos, depois do programa ter abrangido, em oito anos, 48 participantes. As candidaturas a bolsas propostas pela administração Obama têm sido melhor coordenadas e preparadas, mais de duas dezenas atribuídas, porque as organizações conhecem-se melhor e cooperam mais. “O poder desta rede é o de fazer estabelecer relações profundas que fazem de Boston um melhor lugar”, afirma John Barros, director executivo da organizaçã0 Dudley Street Neighborhood Iniciative  e participante no programa sabático de 2007.

A monitorização e análise da evolução comportamental desta rede criada em 2004 têm sido realizadas regularmente por avaliadores externos e internos, por via da participação em inquéritos online e entrevistas. Nesta avaliação, os indivíduos que participaram nestes programas sabáticos reportaram que atiraram para trás das costas o ego, o conflito e a ideologia para gerar uma “coragem colectiva”. A nível geral, a influência junto do poder aumentou. A rede ultrapassa as preocupações iniciais das organizações. Um participante do programa da Barr Foundation de 2007, Meizuh Lui, conclui: “A solidariedade fez crescer a conectividade local, podemos perceber melhor as causas na origem da pobreza e da desigualdade”.

Texto escrito a partir de ““Networking A City” , artigo publicado na Standford Social Innovation Review