“Ideologia masculina” no desenho das organizações “enviesa” avaliação do potencial da mulher, defende investigadora do CIES-IUL

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Com vista à igualdade de género, Mara Vicente defende o aumento de mulheres em órgãos de decisão, “indo além do legislado”

Por que existe segregação de género nas políticas de recrutamento nas empresas ou no acesso a cargos de poder e autoridade? Por que existe diferença salarial entre homens e mulheres? Mara Vicente, investigadora do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia – Instituto Universitário de Lisboa, reflectiu sobre diversas abordagens teóricas referentes à diferenciação de género nas estruturas organizacionais e expô-las num “paper”. Seguem-se algumas conclusões.

 

Apesar do desenvolvimento de políticas de igualdade entre mulheres e homens no mundo laboral em Portugal, as diferenças são ainda bastante notórias, defende Mara Vicente no seu “working paper” publicado já este ano.

Em “O Género nas Estruturas Organizacionais: A diferenciação entre homens e mulheres na ocupação de funções, no acesso ao poder e nos salários”, conclui-se que esta desigualdade constitui uma “construção social”, que tende a ser reproduzida e encarada como uma “diferenciação técnica, com base em aptidões e competências para o desempenho de determinada função e não com base na segregação de género”.

O âmago da questão está, no entender da investigadora, na “predominância de modelos masculinos no desenho das estruturas organizacionais, conferindo vantagens aos homens”, o que se traduz em “obstáculos” para as mulheres, quando estas “procuram integrar-se numa estrutura social que não foi construída atendendo às suas características e aos seus papéis sociais”.

Por exemplo, a conciliação família/trabalho foi ignorada neste desenho masculino das estruturas organizacionais, segundo Mara Vicente. “A dificuldade em conciliar exigências profissionais, determinadas pela organização, com as exigências familiares, determinadas pela sociedade” é um dos problemas criados por esta visão tornada prática. “Conciliar ambos os esquemas sociais” gera a experiência de “conflitos de papéis”, conclui.

O “paper” lembra ainda, neste sentido, que, mesmo em profissões dominadas por mulheres, especialmente nas áreas da saúde e da educação, os cargos de gestão são ocupados por homens.

Também as diferenças salariais são explicadas por uma “ideologia masculina” nas estruturas organizacionais que “enviesa” a avaliação do potencial das mulheres para o desempenho de funções.

Esta ideologia, recorda a investigadora do CIES, é baseada na ideia de que “os trabalhadores homens são mais capacitados para desempenhar funções desenhadas à sua imagem, e para as quais recrutam numa lógica de reprodução homossocial”, ou seja, entre pares. A falta de compromisso a longo prazo e de experiência pode ser apontada à mulher, neste contexto, como desvantagem face ao homem.

Por fim, a autora defende que é “pertinente” persistir no desenvolvimento de políticas de integração social, de igualdade e de antidiscriminação no mercado de trabalho, com o objectivo de alterar “esquemas culturais e estruturas sociais que conduzem à desigualdade de género no mundo laboral”. Para tal, é defendido o aumento do número de mulheres em órgãos legislativos, “indo para além do legislado”.

Ler artigo completo de Mara Vicente aqui.

Relatório ONU: Educação das mulheres é fundamental para a Segurança Alimentar

Igualdade

 

Melhorar a educação das mulheres pode reduzir a fome nos países em vias de desenvolvimento. É esta uma das principais sugestões incluídas em “Gender and The Right To Food”, um relatório das Nações Unidas publicado hoje, que aborda questões de desigualdade de género associadas ao direito à alimentação. Fonte: Euractiv.com.

As mulheres constituem 30% dos produtores de bens alimentares a nível global. Porém, ainda enfrentam grandes obstáculos face aos homens, como restrições relacionadas com direitos de propriedade e herança, a somar ao desequilíbrio no que diz respeito ao acesso a capital e a tecnologia, adverte o relatório da ONU.

“Se for permitido às mulheres ter igual acesso à educação, várias peças do puzzle da segurança alimentar serão colocadas no lugar”, defendeu Olivier De Schutter, o relator do relatório e professor de Direito na Bélgica.

“Os consumos familiares em alimentação irão aumentar, a saúde das crianças irá melhorar e os sistemas sociais serão redesenhados – para as mulheres, pelas mulheres – para prestar apoio, com os melhores efeitos multiplicadores”.

Este relatório é publicado cinco dias depois da Comissão Europeia ter esboçado as suas posições negociais referentes ao plano que irá suceder os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio [ODM, válido apenas até 2015], e que será discutido em Setembro na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Entres as oito metas do ODM, até 2015, constavam a erradicação da pobreza extrema e da fome, a promoção da igualdade de género, a erradicação de doenças que atingem milhões e o incentivo de novas bases para o desenvolvimento sustentável dos povos.

 

Igualdade de Género na União Europeia como exemplo

Na comunicação da Comissão Europeia “Uma Vida Decente para Todos” podia ler-se que o enquadramento pós-2015 para reduzir a pobreza no mundo devia “colocar particular ênfase em avançar na direcção de uma abordagem para o desenvolvimento baseada nos direitos, na redução das desigualdades, bem como na promoção e na protecção dos direitos das mulheres e das meninas e na igualdade de género, transparência e luta contra a corrupção”.

O roteiro para uma “vida decente” compromete a União Europeia a executar os objectivos definidos no seu plano de acção para as questões de Género, usando o “músculo” como o maior “dador” de desenvolvimento para encorajar quem recebe auxílio a aumentar as oportunidades no feminino.

43% da redução da pobreza nos países em vias de desenvolvimento podem ser atribuídos ao progresso na educação das mulheres, face a 26% atribuídos a um acesso melhor aos alimentos. A educação das mulheres é o factor “mais importante” para determinar a segurança alimentar, defende o relator do novo relatório da ONU.

Para além da educação, o relatório apela ainda aos governos a apoiarem mais as mulheres produtoras de bens alimentares, através de projectos de trabalho público, como a melhoria dos sistemas de irrigação, e da alteração da lei, que venha a permitir que as mulheres possam ser proprietárias e herdeiras de terrenos.

“Os dados sugerem que os países onde as mulheres têm falta de direitos de propriedade ou de acesso ao crédito têm em média de 60 a 85% mais crianças desnutridas”, lembra De Schutter.

O relatório adverte ainda para os desequilíbrios de acesso aos recursos pelas mulheres nestes países. Menor acesso a fertilizantes, pesticidas, ferramentas e tecnologia – é este o panorama de descriminação de género no mundo,  segundo a ONU.

Em linha com o documento publicado nesta segunda-feira, está também o relatório anual da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). “Reduzir a desigualdade de género e assegurar um acesso igual pelas mulheres aos recursos é indispensável para acelerar o desenvolvimento rural e agrícola e para aliviar a pobreza”, defende o documento “Estado da Alimentação e da Agricultura” de 2012.

 

Call To Action (III): Uma homenagem ao “erguer” das mulheres do Congo

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E porquê uma acção de consciencialização em formato “dança”? A ideia de uma campanha global surgiu depois de Eve Ensler, autora d’”Os Monólogos da Vagina”, ter visitado a comunidade de Bukavu na República Democrática do Congo, conhecida como a capital da violação do mundo, e onde fundou um centro para vítimas de violação.

Conta a dramaturga e activista, num artigo publicado hoje no diário Huffingtonpost, que se surpreendeu com a forma como as mulheres que ali encontrou, vulneráveis face à violência, “traumatizadas, doentes, mudas e exaustas”, saravam as feridas… através da dança.

“Dançar insta a assumirmos um espaço. Não há uma direcção estabelecida, mas vamos lá juntos. [Dançar] é perigoso, alegre, sexual, sagrado, disruptivo. Quebra as regras. Pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora, e com toda a gente”, pode-se ler na secção das “Perguntas Mais Frequentes” da página oficial de “One Billion Rising” na Internet.

Toda a gente é convidada a participar na dança, “homens e mulheres”, porque “a violência contra as mulheres e raparigas não é apenas uma questão das mulheres, é uma questão humana”, escreve a organização no mesmo sítio.

Já em 2013, Ensler voltou a visitar a mesma comunidade no Congo, “onde teve o privilégio de testemunhar à primeira aula da ‘Cidade da Alegria’, um centro revolucionário de formação, de terapia e liderança para mulheres do Congo que sofreram algumas das piores atrocidades no mundo”. “Elas estavam a erguer-se diante de nós, a sua determinação [era] contagiosa e perseverante”.

Esta acção global é realizada precisamente “em honra das mulheres do Congo que estão a levantar-se face ao impossível”. Há cerca de uma hora, Eve dizia, a partir da República Democrática do Congo, no The Guardian, que a resposta “maciça” ao apelo do “One Billion Rising” está “para além dos [seus] sonhos mais desenfreados”.

E acrescentou que “no Cairo, as mulheres estão a dançar, mas assustadas com a Irmandade Muçulmana. Elas disseram-me que os seus corações estão a bater forte, mas que estavam a dançar, ainda assim”.

Call To Action (II): Dar o corpo ao manifesto e à dança, também em Portugal

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Mais de 200 países já aderiram à iniciativa global. Em Portugal, já responderam à chamada do “One Billion Rising” localidades como Viseu, Coimbra, Covilhã, Lisboa, Almada, Góis, Lagos, Fundão , entre outras, e estão na calha mais de 20 eventos comemorativos deste dia.

“Quando mil milhões de corpos se levantarem e dançarem no dia 14 de Fevereiro, juntar-nos-emos na solidariedade, numa finalidade e na energia e agitaremos o mundo para uma nova consciencialização”. “[A dança] une-nos e atira-nos para longe. É contagioso e espalha-se rapidamente. É do corpo. É transcendente”. Eis duas das mensagens centrais do site oficial da campanha.

Em Viseu, neste momento, no Rossio, está a acontecer o “Move It Now – One Billion Rising”, uma iniciativa da Adamastor – Associação Cultural, “um acto de solidariedade, demonstrando às mulheres a semelhança das suas lutas e o seu poder em números”, mas também “a recusa em aceitar a violência contra mulheres e meninas como um dado adquirido”. A nota do evento de Facebook da organização sugere mesmo a mudança para “um novo tempo e uma nova forma de ser”.
Já em Lisboa, para as 13 horas, está agendado um “flash mob”, no Martim Moniz, organizado pela organização não-governamental ComuniDária. Às 17h30, por sua vez, no Largo de Camões, deputadas e activistas estarão presentes na iniciativa “A Menina Dança?”, com base na coreografia da música “Break the Chain” [Quebrar a corrente]. Organismos da sociedade civil como a Associação Portuguesa de Apoio À Vítima, a Amnistia Internacional, a companhia Chapitô, a ILGA Portugal e a União de Mulheres Alternativa e Resposta estão também envolvidos na preparação desta dança-acção, organizada pela eurodeputada Ana Gomes.

Relatório OCDE | Mães trabalhadoras em desvantagem salarial face aos homens

 

Apesar das desigualdades de género terem vindo a decrescer nos últimos anos em Portugal, ser mãe e trabalhadora ao mesmo tempo ainda é motivo de penalização salarial. As mulheres assalariadas portuguesas com pelo menos um filho ganham menos 24% de vencimento médio mensal face aos homens na mesma condição, de acordo com um estudo recente da Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento Económico [OCDE].

Este valor foi avançado, ontem, no relatório “Terminar com a diferença de género: Agir Agora”, no qual a OCDE analisa as condições de desigualdade de género em 31 Estados, considerando a faixa etária dos 25 aos 44 anos de idade.

Portugal passou a ser o 8º país com maiores disparidades neste campo, no que diz respeito a mães com um ou mais filhos. Nesta matéria, a média das nações estudadas situa-se nos 22%.

Por sua vez, no caso das mulheres sem filhos, a desvantagem salarial também existe em Portugal, mas é menor – na ordem dos 7% abaixo do rendimento mediano masculino, em linha com a média europeia. Traduzindo em posição de ranking: 16º posto, sensivelmente a meio da tabela.

Os países onde a maternidade é mais penalizada no mercado do trabalho são o Japão, a Coreia e a Estónia, de acordo com este relatório.

 

Baixa de impostos, sugere relatório

Segundo o documento divulgado ontem, “as mulheres pagam um preço elevado pela maternidade, com custos acentuados com os cuidados com as crianças, a disponibilidade ou o acesso a certas oportunidades”.

Ainda que “os ganhos alcançados na educação feminina tenham contribuído para um aumento a nível mundial da participação das mulheres no mundo laboral, mantêm-se discrepâncias consideráveis nas horas de trabalho, nas condições do emprego e nos salários”.

Baixar os impostos e melhorar o sistema de benefícios para os pais e as mães que trabalham “ajudaria a reduzir o fosso”. A OCDE defende que, se os cuidados com as crianças absorverem um salário, “há pouco ou nenhum ganho financeiro advindo do facto de os dois pais estarem a trabalhar ou pelo menos a trabalhar o tempo inteiro”.

Para combater estas diferenças, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, considera que os “governos devem (…) tornar os cuidados com as crianças mais acessíveis, de modo a ajudar as mulheres a contribuírem mais para o crescimento económico e para uma sociedade mais justa”.

 

Austeridade dificulta igualdade, defende a OCDE

“Em alguns países, a política de austeridade e o enfoque dos esforços no regresso ao mercado de trabalho de pessoas que estão sem emprego por causa da crise podem tornar a questão da igualdade entre homens e mulheres menos prioritária“, pode ler-se no relatório publicado ontem pela OCDE.

A organização prevê que “a redução das despesas públicas, que enfraquecem as políticas familiares, pode ser prejudicial às mulheres, em particular às mães solteiras”.

O relatório advoga ainda que “as reduções dos postos de trabalho no sector público [em que estão empregadas mais mulheres] anunciadas ou já realizadas em vários países vão agravar ainda mais a situação das mulheres no mercado de trabalho nos próximos anos”.

A ser alcançada uma convergência total das taxas de actividade de homens e mulheres, a organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico estima que o Produto Interno Bruto (PIB) aumente 12% dentro de vinte anos no grupo de países pertencentes à OCDE.

 

Relatório EIGE | Mulheres vítimas de violência não recebem “apoio suficiente”

 

Na Europa, a violência doméstica contra as mulheres mantém-se alarmante, em muitos casos não é denunciada e as vítimas não contam com um apoio eficaz dos serviços públicos. Estas são algumas das conclusões do relatório “Violência Contra as Mulheres: Apoio às Vítimas”, que traça o panorama nesta matéria nos 27 Estados-Membros da União Europeia e na Croácia. A investigação é da autoria do Instituto Europeu para a Igualdade de Género [EIGE].

Nove em cada dez vítimas de violência de género na União Europeia são mulheres. Entre 12% e 35% das mulheres dos 27 Estados-Membros sofrem de violência doméstica física, lembra o comunicado à imprensa do EIGE, o centro de conhecimento da União Europeia dedicado à questão da igualdade de género. Há compromissos assinados pelas instituições europeias – como a Comissão Europeia e o Conselho da Europa – no sentido de combater este problema, mas ainda assim o apoio às vítimas é “insuficiente”, revelam os dados preliminares desta investigação, a ser publicada em Dezembro.

Há uma convicção que atravessa o relatório do EIGE: “São os serviços especializados a única via para conseguir a plena satisfação das necessidades concretas das mulheres vítimas de violência e para ajudá-las a recuperarem-se do trauma”. Neste contexto, são referenciados no documento o alojamento seguro, a protecção, os cuidados de saúde, a assessoria jurídica, o apoio psicológico, profissional e social e o auxílio financeiro.

Apesar de 26 Estados-Membros e a Croácia contarem com centros e serviços deste género, só nove dos países estudados (incluindo a Croácia) cumprem a proporção recomendada de um centro/serviço por cada 50.000 mulheres.

“O estudo mostra que os serviços de apoio actuais não cobrem as necessidades das mulheres vítimas de violência, os serviços especializados são insuficientes e estão desigualmente distribuídos em alguns países e o seu financiamento é irregular”, alerta Virginija Langbakk, directora do EIGE.

É reconhecido, pela positiva, neste relatório, que a grande maioria dos Estados-Membros da União Europeia já têm elaborados e aplicados planos de acção nacionais para combater a violência doméstica, tendo tipificado esta conduta como um delito e adoptado ordens de protecção. Em Portugal, por exemplo, a violência doméstica é considerada hoje um crime público.

“Porém, ainda existe margem para a melhoria”, chama a atenção Langbakk, que recorda que apenas quatro Estados-Membros introduziram no Código Penal uma definição de violência doméstica baseada na perspectiva do género.

“Em muitos destes países, porém, não se aplicam de forma eficaz as ordens de protecção. E além disso, o financiamento dos serviços especializados é instável e tem sido afectado pela actual crise financeira”. Só doze países estudados é que garantem este financiamento legalmente, acrescenta a directora do EIGE.

Um dado do relatório que revela disparidades entre nações: 17 países da União Europeia dispõem de uma linha de ajuda telefónica para mulheres vítimas de violência, mas apenas seis destas linhas são gratuitas e estão disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, um dos requisitos básicos incluídos na Convenção do Conselho da Europa.

No sentido de diminuir os números da violência doméstica e as desigualdades nas iniciativas na Europa, o relatório do EIGE inclui uma série de recomendações, entre as quais acções como “garantir o financiamento sustentável dos serviços especializados, tais como centros de acolhimento para mulheres, linha de ajuda telefónica e serviços de assessoria”, “exigir a formação sistemática e contínua das e dos profissionais em matéria de violência contra as mulheres e garantir o seu financiamento” e “supervisionar e avaliar com regularidade a coordenação do sistema público de apoio a vítimas de violência doméstica”.

Com o objectivo de alcançar um conhecimento mais amplo do problema, o relatório sugere ainda a elaboração de “definições e classificações nacionais que se possam empregar em estudos, investigações e estatísticas administrativas, para garantir uma utilização coerente às escalas nacional, regional, europeia e internacional, e a recolha regular de novos dados”.

 

Os custos da violência

Na sequência deste relatório do EIGE, focado no apoio à vítima de violência doméstica, Sylvia Walby, professora de Sociologia na Lancaster University, e especialista em questões de Género na UNESCO, defende numa entrevista ao EIGE que, na recolha de dados sobre as diferentes formas de violência contras mulheres com base no género, é necessária uma “coordenação política a nível da União Europeia”.

Quanto aos serviços prestados neste âmbito, Walby reconhece que têm havido “desenvolvimentos importantes, incluindo unidades com pessoal especializado, mas são muito desiguais” entre os países da União Europeia. “É importante continuar a desenvolver investigação que oriente a inovação contínua de novos serviços e a oferta eficaz de serviços de qualidade”. O conhecimento a privilegiar deve passar por “compreender a natureza sistémica da desigualdade de género nas interligações entre problemas (que são) aparentemente diferentes”, defende a investigadora. No entanto, as ameaças da conjuntura económico-financeira estão aí e a autora está consciente delas. “Há receios que a crise financeira possa levar à redução da disponibilidade de fundos para estes serviços”.

Sylvia Walby realizou, neste contexto, uma investigação intensiva em torno dos custos da violência. Segundo as suas estimativas, efectuadas no âmbito de um projecto a nível nacional, a violência doméstica custa à Grã-Bretanha mais de 28 mil milhões de euros por ano. Estes custos incluem o uso dos serviços públicos, entre os quais o sistema de investigação criminal, os gastos com processos nos tribunais, os cuidados de saúde, o alojamento, os serviços sociais, bem como estimativas da perda de produção para a economia, como resultado do tempo de ausência do local de trabalho para tratar de assuntos judiciais.

Neste âmbito, Walby cita um relatório que mostra que após um período de investimento em serviços de apoio à vítima houve uma redução na expansão da violência doméstica e daí resultaram poupanças substanciais para a economia. “Há uma justificação económica para reduzir e eliminar a violência com base no género. Isto é relevante no contexto das prioridades políticas e de orçamentos limitados”. A autora ressalva, no entanto, que “o custo da violência para a economia e para a sociedade não é a única, ou mesmo a principal, razão para agir”. Porquê? “A violência contra as mulheres está errada. É injusta. É um crime. É uma violação dos direitos humanos”.

 

Questões de Género em discussão em Cimeira no PE, hoje e amanhã

Entretanto, em Bruxelas, o Parlamento Europeu acolhe hoje e amanhã a 2ª Cimeira de Género, que reúne líderes das áreas da Ciência e da Política para discutir os últimos resultados de investigações e acções realizadas em matéria de igualdade de género por instituições científicas. Da ordem de trabalhos consta ainda uma consulta à criação do chamado Joint Gender Quality Standard.

“Este é uma oportunidade sem precedentes para alinhar investigação, inovação e agendas políticas que abrangem a questão do género para melhorar a qualidade e a eficácia do esforço científico quer a nível nacional, quer a nível Europeu neste sentido, numa era de desafios importantes que a sociedade enfrenta”, pode ler-se no site do Instituto Europeu da Igualdade de Género a propósito desta cimeira.

Dianova implementa Plano de Igualdade e Conciliação como Boa Prática a nível do seu Capital Humano

Formação em “Igualdade do Género” ministrada na Dianova Portugal

 

33 Colaboradores efectivos e a contrato, 51% mulheres e 49% homens, passam a beneficiar de um conjunto sistematizado de medidas a nível de igualdade de género e de conciliação da vida profissional e pessoal com expectável impacto positivo no aumento da motivação interna e da produtividade bem como da competitividade organizacional.

Centro de Formação Dianova efectuará a implementação de Planos de Igualdade junto de 6 Organizações Sociais de acordo com o projecto de co-financiamento pelo Fundo Social Europeu e pelo Estado Português

A igualdade entre homens e mulheres constitui um dos princípios fundamentais da carta magna das Nações Unidas, de todos os convénios internacionais, tratados europeus, assim como da maioria das constituições nacionais. Contudo, a mera declaração formal da igualdade entre mulheres e homens não é suficiente para garantir a efectiva igualdade por diversas razões de índole social, económica, cultural e política. Na prática, as discriminações subsistem, com mais ou menos intensidade de acordo com cada país, em áreas como a política, acesso a cargos de decisão, níveis salariais, acesso a empregos diversificados, etc.

“Apesar de já dispormos de medidas ainda que não sistematizadas desde há mais de 2 décadas, sendo a favor de uma acção normativa dirigida à eliminação de todas as manifestações ainda existentes de discriminação, comprometemo-nos a trabalhar para a igualdade de oportunidades para todos(as) os nossos(as) 33 Colaboradores(as) efectivos e a contrato (17 são mulheres e 16 homens), independentemente do seu género, raça, religião, idade, em todos os âmbitos da sua influência, tanto internos como externos.”, refere Marta Santos, responsável pela área de Gestão de Pessoas da Dianova Portugal.

“A incorporação dos valores de igualdade e diversidade de forma transversal desta Organização Social impulsiona uma estratégia integradora de todas as pessoas ao mesmo tempo que potencia um crescimento rentável e sustentável da própria Dianova.”, conclui Marta Santos.

Deste modo, e alicerçado numa candidatura ao Eixo 7 – Igualdade de Género, Tipologia de Intervenção 7.2 – Planos para a Igualdade, do Programa Operacional Potencial Humano, Quadro de Referência Estratégico Nacional (co-financiada pelo Fundo Social Europeu e pelo Estado Português), a Dianova desenvolveu o Plano para a Igualdade e Conciliação, que se caracteriza por um conjunto de medidas específicas, com vista à melhoria na perspectiva não só de género mas também de oportunidades e de tratamento.

A concepção deste Plano, que começou em Outubro de 2011, obedeceu a duas etapas fundamentais:

– Constituição de um Comité para a Igualdade e Conciliação e designação das suas competências: constituído por um membro da Direcção e pela Responsável pela Gestão de Pessoas, tem como competências básicas a promoção e supervisão do cumprimento da Política de igualdade, a identificação de áreas de actuação prioritárias, a definição e implementação de iniciativas no âmbito da igualdade e conciliação bem como a monitorização e avaliação do Plano de Igualdade.

– Diagnóstico Organizacional, foi utilizado o questionário de auto-avaliação do Guia de Auto-avaliação da Igualdade de Género nas Empresas, de Setembro de 2008, desenvolvido no âmbito do projecto Diálogo Social e Igualdade nas Empresas, para apreender a realidade em matéria de igualdade e não discriminação existente na Dianova, no qual estão a ser sustentadas as acções a desenvolver.

O Plano encontra-se estruturado em 9 áreas de intervenção:

  • Estratégia, Missão e Valores, Recrutamento e Selecção, Aprendizagem ao Longo da Vida, Gestão de Carreiras, Diálogo Social e Participação dos Trabalhadores, Respeito pela Dignidade Humana, Comunicação e Linguagem, Conciliação entre a Vida Familiar e Profissional e Maternidade e Paternidade,
  • concretizadas num conjunto de acções, tais como a implementação de um sistema de avaliação de competências, a criação de manuais sobre o uso de uma linguagem inclusiva ou de direitos parentais, ou a inclusão de acções de formação em igualdade de género e não discriminação no Plano de Formação Anual, às quais se associaram indicadores de resultado, bem como a responsabilidade pela sua execução.

Foram realizadas 4 acções de sensibilização/informação e de formação que envolveram os/as 33 colaboradores/as da Dianova, com o objectivo de dar a conhecer todo o processo de implementação do Plano bem como dar a conhecer os resultados obtidos no diagnóstico e medidas a implementar.

A nível de Comunicação Interna e Envolvimento com Colaboradores/as, visando incrementar o conhecimento das medidas, foram produzidos e distribuídos junto de todos/as os/as colaboradores/as os seguintes materiais:

  • Política de Igualdade
  • Guia Direitos de Parentalidade
  • Boas Práticas para a promoção da Conciliação da vida pessoal, familiar e profissional na Dianova
  • Manual de Uso de uma Linguagem Inclusiva e Não discriminatória
  • Plano para a Igualdade
  • Recomendações para uma Linguagem Inclusiva
  • Declaração de Compromisso para com a Igualdade e Conciliação

O Plano para a Igualdade entrou em vigor no último quadrimestre 2012 e foi delineado para o período temporal de 2012-2013. Este plano estará sujeito a monitorização e acompanhamento, através da análise dos indicadores associados a cada acção e será objecto de avaliação anual. Com base nos resultados obtidos, e após análise da situação actual em matéria de igualdade e conciliação, serão definidas novas medidas a implementar.

Ao abrigo desta boa prática, co-financiada pelo Fundo Social Europeu e pelo Estado Português, está ser efectuada a elaboração de estratégias operacionais para a replicação deste projecto pelo Centro de Formação Dianova junto de 6 Organizações Sociais a concluir durante o primeiro trimestre de 2013, capacitando-os a nível do seu Capital Humano para uma maior produtividade organizacional.

CE prepara lei de quotas de género para conselhos de administração de organizações

CE estima que equilíbrio de géneros nas organizações durará mais de 40 anos

 

As empresas da União Europeia com mais de 250 trabalhadores ou que ultrapassem os 50 milhões de euros em receitas vão ser obrigadas a reportar anualmente a composição dos conselhos de administração por géneros. Em 2020 um conselho de administração deverá ter por lei, no mínimo, 40% de mulheres.

Coimas administrativas ou bloqueio de acesso a ajudas estatais ou concursos públicos serão as penalizações estipuladas pela Comissão Europeia (CE) para os casos de incumprimento de quotas.

Estas são as linhas centrais da proposta legislativa da Comissão a que o jornal Financial Times teve acesso e que deverá ser apresentada formalmente em Outubro por Viviane Reding, a comissária para a Justiça e para os Direitos Fundamentais.

Em 2011, Reding, lançou o programa voluntário Women on the Board Pledge for Europe, apelando às empresas para aumentarem o número de mulheres presentes nos conselhos de administração para 30% em 2015 e para 40% em 2020.

Caso a iniciativa de auto-regulação falhasse, Reding – que disse recentemente não ser “uma grande fã” de quotas, mas gostar dos “resultados que elas trazem” – prometeu considerar uma acção legislativa.

O apelo não surtiu os efeitos desejados. Um relatório da Comissão Europeia, publicado em Março de 2012, revelava que apenas 13,7% dos membros dos conselhos de administração das empresas de topo na Europa eram mulheres. Em 2010 eram 11,8%.

Os dados do relatório revelaram um grave desequilíbrio de géneros. “O progresso na quota de mulheres nos conselhos de administração é muito lento, com um aumento anual médio de apenas 0,6% nos últimos anos”, refere o esboço da directiva europeia a que o Financial Times teve acesso. “A taxa de melhorias entre os estados-membro tem sido desigual e tem gerado resultados altamente divergentes”, refere o documento.

A União Europeia estima que demorará mais de 40 anos a alcançar um equilíbrio de géneros significante, isto é, na ordem dos 40% (para ambos os sexos). Por sua vez, há mais mulheres a graduarem-se do que homens na Europa (59% contra 41%).

Vários estudos revelam ainda associações fortes entre o equilíbrio de género e a performance na criatividade e inovação, nos resultados financeiros, nas auditorias e controlos internos, lembra o portal Euractiv.com.

 

A resistência do Reino Unido e Suécia às quotas

Em Março de 2010 foi lançado na Europa o Women’s Charter, que tinha como um dos principais objectivos promover mais igualdade entre géneros nos processos de decisão. A partir de Setembro desse ano, a Comissão Europeia começou a adoptar a Estratégia para a Igualdade de Género para os cinco anos seguintes, inclusive através de iniciativas direccionadas a mulheres, com vista a trazê-las para os centros de decisão e para profissões de topo na área da economia.

No conjunto dos 27 estados-membros da União Europeia, França, Bélgica, Alemanha, Itália e Holanda já adoptaram as suas quotas nacionais.

Suécia e Reino Unido têm mostrado resistências à imposição deste modelo. Segundo o Financial Times, a proposta legislativa da Comissão Europeia, a ser aprovada por maioria que vigora na União Europeia, não pode ser vetada por estes dois países.

A Finlândia é o país europeu onde há mais mulheres nos conselhos de administração de empresas (27%). Em Portugal  6% dos cargos de direcção são ocupados por mulheres.

Drogas | Estudo revela que mulheres são discriminadas em campanhas de prevenção

As campanhas de prevenção de consumo de drogas não estão pensadas para que cheguem de igual modo a mulheres e homens, o que pode levar a que a sua eficácia seja diferente. Esta é a principal conclusão de um estudo das campanhas publicitárias  difundidas em Espanha entre 2002 e 2011. Os resultados desta análise centrada na perspectiva do género foram divulgados ontem pela UNAD.

Estudo assinala invisibilidade da mulher nas campanhas de prevenção

A análise qualitativa de campanhas de âmbito estatal relativas à prevenção de consumo de drogas e a problemas associados foi realizada por um grupo multidisciplinar de especialistas nas áreas do Género, Droga, Prevenção, Publicidade e Comunicação, tendo sido coordenada pela Unión de Asociaciones y Entidades de Atención al Drogodependiente (UNAD).

E qual é o objectivo do estudo? “Melhorar a eficácia das campanhas de prevenção do consumo de drogas no colectivo de mulheres”, pode-se ler no site desta organização não-governamental sedeada em Madrid, numa altura em que há um incremento da “feminização do consumo de drogas e de adições de substâncias psicoactivas”, legais e ilegais.

Vários estudos recentes revelam que o consumo de drogas e álcool está a aumentar entre as mulheres. A UNAD lembra que, na última década, também cresceu o número de mulheres que recorrem a centros de atenção especializada por reconhecerem um problema de adição. Em 2011, nos centros da organização espanhola, 33,56% das pessoas atendidas eram mulheres.

Segundo a Encuesta Estatal sobre uso de Drogas en Enseñanzas Secundarias (ESTUDES), análise focada em estudantes dos 14 aos 18 anos em escolas secundárias, em 1994 o consumo de canábis entre estudantes do sexo feminino era de 18%, em 2008 de 32,8%. A mesma tendência se dá no caso do consumo de cocaína. Passou de 1,9% em 1994 para 3,8% em 2008. Já no consumo de álcool e hipnosedativos, as jovens ultrapassam os jovens.

A UNAD aponta, mesmo considerando que a questão do consumo associado ao género ainda foi pouco estudada, como uma das causas para estes números “a inadequação das campanhas de prevenção que se desenvolvem, tanto por parte das administrações públicas, como pelas organizações sociais”.

 

Metodologia do estudo

Sob avaliação nesta análise estiveram textos, imagens, grafismo, contextos, situações e relações incluídos em campanhas de marketing social estatais com a finalidade de inspirar a mudança de comportamentos e atitudes. “Reduzir o consumo de drogas e aumentar a idade de início do consumo” foram identificados pela UNAD como os objectivos das campanhas de “publicidade de prevenção” estudadas.

Numa primeira fase, foram recolhidas todas as campanhas de prevenção de consumo de drogas em suporte informático que iam ser objecto de estudo e envidas para cada profissional para avaliação. Após a aplicação de dois questionários – um para avaliar cada uma das campanhas e outro para fazer uma avaliação global – ocorreram reuniões com toda a equipa de peritos envolvidos, que fizeram uma análise exaustiva de cada campanha. Nestes encontros foram divulgadas as respostas aos questionários, debateram-se mensagens publicitárias e foram compiladas conclusões. Por fim, foram estudadas e elencadas em conjunto propostas para futuras campanhas de publicidade.

 

UNAD propõe linguagem inclusiva e monitorização das campanhas

Se a primeira conclusão destacada nesta análise reconhece que as campanhas de prevenção de consumo de drogas não estão pensadas para que cheguem de igual modo a mulheres e homens, a segunda – ligada à anterior – é que a linguagem utilizada nas campanhas reforça os papéis tradicionais do homem e da mulher.

Os resultados dos questionários respondidos por peritos das áreas dos media, dos estudos de género e das drogas apontam para a percepção consensual de que a maioria das campanhas não tem em conta a questão do género, e que, aliás, não é notada nenhuma “evolução positiva significativa” nesta matéria na década estudada. Por exemplo, nenhum dos intervenientes no estudo disse conhecer campanhas específicas para mulheres.

Outras notas dos especialistas: o consumo diferenciado entre homens e mulheres não está presente na maioria das campanhas e as campanhas parecem claramente realizadas por homens. A invisibilidade das mulheres neste tipo de publicidade não se coaduna com a realidade dos números, defende o estudo. As últimas campanhas contra o álcool dirigidas a jovens mostram sempre um rapaz com claros indícios de embriaguez, quando os últimos dados revelam que a prevalência de consumo de álcool nas raparigas supera a dos rapazes.

Os estereótipos, arquétipos e papéis sexuais e sociais são mencionados várias vezes ao longo do relatório. Foi notado que os vídeos mostram sempre a imagem da mãe sofredora, vulnerável, a acompanhar mensagens de culpa. Nas campanhas é ressaltado um “estereótipo determinado”, associando o consumo a rapazes e raparigas com bom ar e com nível económico. Os especialistas lembram que a voz off masculina, nos anúncios, transmite ideias de autoridade e credibilidade, enquanto a voz off feminina expressa angústia, ansiedade e preocupação.

Com vista à realização de campanhas mais inclusivas, o estudo aponta como propostas “pôr enfâse no consumo problemático de substâncias cuja adição é maior em mulheres”, como é o caso dos psicofármacos, e eliminar das campanhas publicitárias o cânone da beleza, que não corresponde à realidade.

Recomendar a utilização de linguagem não sexista, ter em conta novos modelos de família e criar um organismo específico responsável por realizar pareceres sobre o impacto do género na publicidade institucional são outras das sugestões do estudo divulgado ontem pelo UNAD. Bem como a coordenação entre a empresa publicitária, a instituição que põe em marcha a campanha e um organismo específico para avaliar se as campanhas contemplam a questão do género, e a influência junto do Ministério da Saúde, dos Serviços Sociais e da Igualdade para fazer cumprir a lei da igualdade na política da saúde.

 

Outros dados do estudo

– Muitas substâncias não são abordadas nas campanhas

– As campanhas mostram mensagens muito dramáticas

– É necessário diferenciar consumo esporádico do abusivo

– Existem muito poucas campanhas de prevenção dirigidas aos consumidores