Bairro Alto. “Aqui fumam-se charros como se bebem copos”

Se fosse hoje, Nuno não tinha sido detido aquela primeira vez. Era o 1.o Maio, andava com os amigos na rua e levava três gramas de haxixe. Tinha 18 anos, passou uma noite no governo civil e foi então condenado a uma pena suspensa de 90 dias de prisão e a uma multa de 90 contos. “Fez mossa. Sempre se omitiu lá em casa que houvesse um problema. Depois passei a ser a ovelha negra.” Se a descriminalização tivesse chegado mais cedo, talvez isso tivesse feito diferença na sua trajectória -nunca saberá. Mas talvez o agora – limpo, com uma filha de três anos, trabalho estável e força para resistir a servir bebidas todas as noites e ter droga à venda à porta do trabalho – tivesse chegado mais depressa, e não aos 41 anos. Depois do haxixe, Nuno que prefere o nome fictício porque o rótulo de ex-toxicodependente faria soar o alarme a qualquer patrão, continuou pela cocaína e pela heroína, até fazer a última desintoxicação no ano 2000.

Não consome drogas há tanto tempo como a lei que hoje comemora dez anos de entrada em vigor, mas quando olha à sua volta o balanço não é muito positivo. O consumo e posse de doses para até dez dias – no caso do haxixe são cinco gramas – deixou de levar a julgamento para passar a ser avaliado por uma comissão própria, que aplica coimas e outras sanções aos consumidores ocasionais e indica os toxicodependentes para tratamento, mediante o interesse dos próprios, ou para acompanhamento periódico nos centros de saúde.

Os últimos dados do Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT) revelam que apesar de cada vez haver mais gente que já experimentou canábis e cocaína, as duas drogas mais consumidas no país, há menos consumos continuados tanto nos adultos como nos jovens. Para Nuno, a leitura não é assim tão linear. No microcosmos que é o Bairro Alto, em Lisboa, sente que a droga é mais acessível e o consumo menos vigiado. “Nos meus tempos de cliente tínhamos de ir ao Casal Ventoso, ao bairro da Curraleira, ao Casal do Pinto. Já tive aqui gente a oferecer-me coca, heroína, tudo e mais alguma coisa. Começávamos por fumar haxixe na escola, escondidos. Agora é uma podridão diferente.”

Depois de mais de 20 anos agarrado às drogas pesadas e ao álcool, o primeiro alerta é que parece não estar a passar a mensagem que a porta de entrada é sempre um primeiro consumo. “Ninguém sabe se é um adicto por natureza”, diz. “Não vejo diferença entre aquilo que me tornou um toxicodependente e aquilo que hoje leva os miúdos a consumir. Pensamos que se controla, mas não se controla nada. Primeiro é só por festa, à sexta-feira. Depois pensa-se na sexta-feira durante toda semana e há uma altura em que se pergunta: ”Porque é que não fazemos também à quarta?” Acho que 80% dos miúdos que vejo aqui a consumir droga e álcool não vão chegar onde eu cheguei, mas alguns vão.”

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