Europa: Médicos alertam para aumento de xenofobia nos Sistemas de Saúde

shutterstock_47232823_CMYK

 

As medidas de austeridade adoptadas na Europa em resposta à crise das dívidas públicas nacionais têm um impacto “devastador” nos serviços de saúde em países como a Grécia e Espanha, assinala a organização Doctors Of The World. Notícia do portal Euractiv.

 

O alerta dos Doctors Of The World – uma organização humanitária que presta assistência médica a populações afectadas pela guerra, desastres naturais, doença, fome, pobreza e exclusão – foi dado aquando da publicação do relatório “Acesso aos serviços de saúde na Europa em tempos de crise e a crescente xenofobia” relativo a 2012. Uma das suas principais conclusões é que aumento do desemprego e da pobreza na Europa tem gerado declarações da extrema-direita estigmatizantes para os migrantes.

Este documento abrange dados recolhidos em 14 cidades de sete países Europeus e sinaliza um aumento de actos xenófobos e das restrições no acesso aos serviços de saúde na Grécia e noutros países Europeus como resultado das medidas de austeridade.

81% dos pacientes que apareceram numa clínica dos Doctors of The World em 2012 não tinham possibilidade de aceder a cuidados de saúde a pagar o custo total e 49% tinham habitação temporária ou instável.

Entre os pacientes que falaram de violência, 27% relataram ter sido vítimas de actos violentos depois de chegada ao país de acolhimento. 20% referiram ter-lhes sido negado o acesso a assistência médica por um prestador de serviços de saúde nos últimos 12 meses (especialmente em Espanha, 62%).

“Isto tem a ver com dignidade e viver em segurança sem medo”, afirmou o doutor Nikitas Kanakis dos Doctors of The World da Grécia na apresentação do relatório no International Press Center, em Bruxelas.

“Com a crise social a crescer e a crescer a cada dia que passa, vemos outra vez, sobretudo no Sul, as pessoas que necessitam mais do Estado a serem acusadas mais frequentemente. Temos que falar sobre isto”, acrescentou Kanakis.

 

Irá o sistema de saúde universal desaparecer na Europa?

 

Na Grécia todo o sistema público de saúde está sobre uma enorme pressão devido às medidas de austeridade. Em Espanha, o governo restringiu, por via legal, o acesso à saúde de migrantes indocumentados.

Alvaro Gonzales, dos Doctors of The World do país vizinho, defende que o Estado-Providência e o sistema universal de saúde estão a ser desmantelados e que apenas podem aceder a este último se se está a trabalhar, activo ou se se tem um cartão de saúde.

Os grupos que já eram considerados vulneráveis antes da crise – migrantes ilegais, mas também sem-abrigo, refugiados, toxicodependentes, trabalhadores do sexo e indigentes com cidadania Europeia – têm assistido a uma redução nas redes de segurança social que lhes providenciam apoio básico, defende a organização mundial de médicos.

“É importante sublinhar o facto de isto [esta situação] ser uma questão ideológica, porque não pode ser apoiada de um ponto de vista dos direitos humanos. É completamente injusta e vai contra os tratados internacionais”, assinala Gonzalez.

A crise das dívidas da Zona Euro levou a que alguns governos cortassem drasticamente os seus orçamentos para a saúde pública com vista a conter os défices. Grécia e Espanha estão entre os países que tomaram as medidas mais duras. A França e a República Checa seguiram-lhe os passos.

“Embora muitos dos pacientes venham para a Europa para procurar protecção, eles não estão protegidos. Isto significa que reparar a saúde mental não é possível. Muitas destas pessoas estão isoladas. Têm fracas conexões sociais e vivem em situação precária com um futuro significativamente incerto“, lembra Thierry Brigaud, um representante da organização internacional de médicos em França.

 

 

Cameron critica “turismo social”, Doctors of the World lembram a ética médica

 

Fora da Zona Euro, mas na Europa, também Cameron no Reino Unido criticou e diz pretender atacar aquilo a que chama de “turismo social”, prometendo maior controlo de acesso dos migrantes aos serviços de saúde e à habitação. “O que temos é um Serviço Nacional de Saúde, não um Serviço Internacional de Saúde”, alertou Cameron recentemente, de acordo com a agência Reuters, numa referência aos migrantes provindos da Bulgária e Roménia.

Estará a ideia de Europa ameaçada com esta tendência? O doutor Kanakis tende a pensar que sim: “Estas pessoas [mais vulneráveis] que necessitam de um bom sistema de saúde têm medo de ir lá. As pessoas que mais necessitam da Europa, experienciam-na menos e não podem estar calados”.

Os Doctors of the World reclamam da União Europeia “uma política de saúde pública coerente para a prevenção e tratamento de doenças infecciosas”. De acordo com a ética médica, defendem o direito à assistência médica de todos os pacientes, independentemente do seu estado social ou origem étnica.

 

Exemplo de campanha de sensibilização contra xenofobia na Grécia dos Doctors Of The World:

“ENOUGH!”, um programa destinado a promover a tolerância e a prevenção da violência racista

Anúncios

Mês da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância: Campanha nacional sobre rodas

ft

 

Abril é o Mês da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância. Até dia 30, vários concelhos do país vão assinalá-lo, através de uma campanha de sensibilização, desdobrada em iniciativas culturais e educacionais e co-organizada pela Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco [CNPCJR], pelas autarquias e associações a trabalhar nesta área.

Consciencializar a comunidade para a importância da prevenção dos maus-tratos na infância, do fortalecimento das famílias no sentido de uma parentalidade positiva e ainda do fundamental envolvimento comunitário”. É este o objectivo da campanha que reúne mais de 70 Comissões de Protecção de Crianças e Jovens que, localmente, estão a promover actividades – entre ciclos de cinema, debates, caminhadas e produção de laços azuis, símbolo da causa. Trofa, Santo Tirso, Lisboa, Vizela estão entre outros municípios que se associaram à campanha a nível nacional.

Hoje, dia 5, por exemplo, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras, Lisboa, tem lugar a primeira sessão de quatro de um ciclo de cinema alusivo ao tema, com a projecção de “Jaime” [1999], um filme de António Pedro Vasconcelos. Destinadas à comunidade em geral, crianças e jovens, e técnicos da área da protecção da infância, estas sessões de cinema são sempre seguidas de um debate. Na abertura, esta noite, pelas 20 horas, estarão presentes, além do realizador de “Jaime”, a vereadora municipal Helena Roseta, Armando Leandro, da CNPCJR, e Margarida Martins, da Associação de Mulheres Contra a Violência.

“Laço Branco”, de Michael Haneke, e “Sangue do Meu Sangue”, de João Canijo, são os filmes que se seguem no âmbito deste ciclo de cinema, que termina a 23 de Abril com a projecção de curtas-metragens realizadas por crianças e adolescentes de várias escolas e outras entidades do país, no âmbito das oficinas de iniciação ao cinema orientadas pela Associação Os Filhos de Lumière. Durante o mês de Abril, haverá ainda tempo para uma “Semana do Filme nas Escolas”, destinada a alunos dos 2º e 3º ciclos das escolas do concelho de Lisboa.

A norte, em Santo Tirso, para este domingo, dia 7, está agendada uma Caminhada pela Prevenção, que consistirá num passeio pedonal pelas margens do Rio Ave. Acções de sensibilização nas escolas, eventos sociais e desportivos, bem como a divulgação na comunicação social de notícias e artigos sobre o trabalho desenvolvido no concelho na área da prevenção e acompanhamento das crianças em perigo, são algumas das várias iniciativas preparadas no âmbito do Mês de Prevenção dos Maus-Tratos na Infância.

Em Vizela, também a nível curricular, este drama pessoal, familiar e social não será esquecido. Numa entrada do blogue da Biblioteca da Escola Básica Caldas de Vizela pode-se ler que “um panfleto informativo da CPCJ será lido e interpretado nas aulas de Educação Moral Religiosa e Católica, seguindo-se a visualização do filme ‘O Bom Rebelde’. Serão [ainda] produzidos laços azuis”. Todo o material produzido durante este mês será posteriormente divulgado pela CPCJ na Feira do Livro promovida pela Câmara de Vizela, acrescenta o blogue.

Como “desafiar a angariação de fundos tradicional”?

shutterstock_28318237

“As organizações sem fins lucrativos têm que se adaptar às dinâmicas em mudança” no terceiro sector, se querem ser “bem-sucedidas”, e essa adaptação passa por uma “transformação” no ramo da angariação de fundos, defende Jim Coe, num artigo de opinião no jornal britânico The Guardian. No mesmo diário, Nicolle Wilkinson, gestora na NESTA, explica, recorrendo a exemplos de projectos em marcha, como se pode “desafiar a angariação tradicional” com a ajuda de um fundo de inovação.

Segundo um relatório recente da Charities Aid Foundation, o terceiro sector enfrenta vários desafios. Um dos mais prementes é responder às quebras de receitas através da angariação de fundos. Uma das potenciais explicações para este estado da arte é que “na prática, a integração da campanha e do marketing é alvo de uma fraca estratégia, sendo mal implementada”, na opinião de Jim Coe, comentador versado em Campanhas e Mudança Social e Política, que em Dezembro de 2012 assinou, no The Guardian, o artigo As Tendências sociais, tecnológicas e políticas estão a transformar a Angariação de Fundos.

Nicolle Wilkinson, gestora de desenvolvimento em “Innovation in Giving” na NESTA, por sua vez, inicia o seu artigo As Instituições de Solidariedade Social de topo estão a descobrir formas inovadoras de Angariação de Fundos com perguntas. “Como podem [estas organizações] atrair novos doadores, manter o envolvimento dos actuais doadores e obter doações mais regulares?”. “Desafiando a angariação de fundos tradicional”, responde. O ponto de chegada das campanhas, esse, mantém-se intacto, de acordo com Wilkinson: “envolver mais pessoas” [e incitá-las] a contribuírem com o seu tempo, as suas competências, com dinheiro e recursos “com o objectivo final de escalar o seu impacto de beneficência.

 

Envelhecimento activo: Jardinar em troca de uma doação para a Age UK

Neste contexto, Wilkinson cita dez exemplos de instituições que estão a levar a cabo projectos de “inovação social”, com o apoio de um fundo da NESTA e do “cabinet office” do governo britânico.

Entre elas está a Age UK, que se aliou à plataforma de partilha Ecomodo para desenvolver uma nova plataforma de doação, com vista a responder a dois desafios: captar novos contribuintes para apoiar os seus serviços e encorajar as pessoas acima dos 50 anos a envolverem-se na prática da angariação de fundos. Uma prática possível: um jardineiro reformado pode oferecer algumas horas de serviços de jardinagem em troca de uma doação à Age UK pelo dono do jardim.

Também o “The Big Family Day Off”, projecto da National Trust, está a ser co-financiado pela NESTA e pelo governo britânico, como forma de dar resposta à já diagnosticada relutância dos britânicos em dispensarem o “tempo precioso da família” para o voluntariado. Em que é que consiste este “Grande Dia”? Os empregadores que aderirem a esta iniciativa dispensarão os seus empregados um dia por ano para fazerem voluntariado com a sua família num projecto de solidariedade social local. “Além de ajudar a instituição, e potencialmente outras, esta [acção] dá a oportunidade às famílias de passarem mais tempo de qualidade juntos e adquirirem novas competências”.

 

O poder de “adaptação” de novos movimentos sociais

“Várias ONGs estão atentas às tendências, algumas estão a trabalhar efectivamente com novos movimentos” e novos procedimentos, estando já a “operar segundo modelos mais adaptáveis”, defende Jim Coe, num artigo em que não poupa este tipo de organizações.

Por outro lado, o comentador cita, neste contexto, novas formas de comunicar e de promover campanhas, através de movimentos sociais ou plataformas onlineUK Uncut, Change.org e MoveYourMoney – que estão a “introduzir mudanças fundamentais no ‘quadro completo’ das campanhas, trazendo consigo desafios, mas também oportunidades”. Outro exemplo mencionado é o do movimento Occupy, que, segundo o autor, “opera de uma maneira diferente e mais convincente: pessoas à procura de soluções nas suas próprias mãos”.

O autor defende ainda uma atenção redobrada aos social media, que “oferecem possibilidades de respostas radicalmente diferentes, e formas de trabalhar mais rápidas e mais descentralizadas”. Entre outras virtudes destes novos meios estão, para Coe, a amplificação na difusão de ideias e a possibilidade de fazer novas conexões, que antes não eram comuns.

A fechar o artigo, é reforçada a ideia de que mantém-se “uma necessidade primordial” para o sector das ONGs: adaptar-se a novos modelos que permitam uma eficácia maior da campanha a nível interno e ligar-se mais efectivamente a novos movimentos [responsáveis por novas] campanhas”.

Fundos Europeus | “Well Spent” quer inspirar futuro da Política da Coesão

 

É uma campanha de “Lobbying Verde” que pretende influenciar os decisores políticos a elaborar um Orçamento da União Europeia para 2014-2020 generoso para as áreas da Sustentabilidade e do Desenvolvimento Regional. Como? Evocando bons exemplos recentes de aplicação de fundos europeus para as áreas dos Transportes, Resíduos, da Energia, Biodiversidade e Eco-construções nos 27 Estados-Membros. Entre eles, é citado o caso de sucesso do uso partilhado de bicicletas eléctricas em Águeda, Aveiro.  

 

“Pensa que todos os Fundos Europeus são subsídios, corrupção e mais estradas? Pense outra vez”. É assim que Connie Hedegaard, a Comissária Europeia para as Questões Climáticas, introduz na sua página da rede social Twitter a campanha Well Spent [Bem Gasto].

A campanha, assinada por uma troika de Organizações Não Governamentais [CEE Bankwatch Network, Friends of the Earth Europe e World Wide Fund for Nature], começa por retratar uma União Europeia a duas vozes na área do Ambiente. Por um lado, a Europa dos investimentos que promovem os combustíveis fósseis, “projectos de uso intensivo do carbono” e de “destruição da natureza”. Por outro, aquela que “às vezes vai pelo caminho certo”.

E de que falam estes activistas quando elogiam o “caminho certo”, “em direcção a uma Europa mais verde e a um mundo melhor”? Invocam “investimentos amigos do ambiente”, “exemplos excelentes de projectos em toda a União Europeia [em curso] que se devem tornar referências para a futura Política de Coesão”, que mapearam, a cor verde, e partilharam num site que serve de “sede” de campanha.

 

Próxima Estação: Uma economia europeia descarbonizada

 

 

O timing da elaboração e de difusão desta campanha não é inocente. Afinal, a discussão do Orçamento da União Europeia para o período 2014-2020 está à porta e é hora de fazer o balanço do que foi bem feito na Europa entre 2007 e 2013 em matéria de Políticas de Coesão, para justificar uma proposta de aplicação de 25% do próximo orçamento em “projectos e iniciativas direccionadas para uma economia descarbonizada em toda a Europa”.

O objectivo é persuadir a União Europeia a investir na replicação de algumas “boas práticas” em curso em vários Estados-Membros, com apoio de financiamento europeu, como a reconstrução de uma rota de migração de animais selvagens na área que separa os Alpes austríacos das Montanhas dos Cárpatos, a modernização da artéria central do metropolitano de Nápoles, a construção de novas habitações sociais energeticamente eficientes ou readaptação de antigas em França, ou a criação de uma rede de bicicletas eléctricas em Águeda, Portugal.

“Acreditamos que estes casos inspiradores [e] as nossas recomendações podem levar a uma replicação e a uma expansão destas histórias de sucesso e a incutir uma melhor aplicação do orçamento da União Europeia, que resulte em mais benefícios a longo-prazo”, pode ler-se no site oficial da Well Spent.

As expectativas deste “lobby verde” traduzem-se em números generosos, mas o discurso foca-se mais na palavra “investimento” do que na da “despesa”: As ONGs envolvidas nesta campanha acreditam que a Política de Coesão é uma “ferramenta de investimento para promover o desenvolvimento regional” e defendem que um terço do Orçamento “deve ser investido” em Política Regional. No período 2007-2013, o Orçamento para a Política de Coesão foi de 350 mil milhões de euros.

“Durante períodos de crise económica e ambiental, a Política de Coesão necessita de focar-se mais em conduzir investimentos que sejam sustentáveis e inovadores, que de facto beneficiem a população, envolvendo-a directamente na implementação e monitorização dos projectos”. Como? Assegurando “benefícios directos para a região ou comunidade beneficiária”, como “impactos ambientais positivos” e “benefícios económicos efectivos” – isto é, poupanças energéticas “substanciais” e criação e manutenção de postos de trabalho. E usando “sustentavelmente” recursos locais e procurando imprimir nos cidadãos envolvidos um “sentido de propriedade da Política de Coesão”, defende a campanha.

Entre as cinco propostas das três ONGs reunidas para inspirar ou influenciar políticos como Connie Hedegaard, está ainda a ambição de colocar o Desenvolvimento Sustentável no centro da Política de Coesão da União Europeia. Bem como um pedido aos decisores europeus para desenharem um orçamento que apoie medidas para a protecção ambiental e eficiência de recursos, incluindo a protecção da biodiversidade e ecossistemas em todas as regiões da Europa.

iCancer: Campanha contra cancro que atingiu Jobs já está online e não é da Apple

iCancer é uma campanha global de angariação de fundos em regime de “crowdfunding”, com vista a prolongar a vida de pessoas com tumor neuro-endócrino. Nem o nome escolhido, nem a data de lançamento são inocentes. Steve Jobs, criador do iMac, morreu há um ano com um cancro deste tipo no pâncreas. As contribuições podem ser efectuadas até 16 de Novembro nas redes sociais.

A 39 dias do fecho desta campanha digital de “crowfunding”, 312 pessoas já doaram cerca de 45 mil euros. O objectivo final é angariar 2 milhões de libras [cerca 2,5 milhões de euros], o montante necessário para a primeira fase dos ensaios em humanos de um vírus modificado, actualmente “preso” num frigorífico na Suécia. Já foi experimentado com sucesso em ratos e pode vir a destruir um cancro cuja incidência está a aumentar a passos largos em todo o mundo e cujo diagnóstico muitas vezes acontece tardiamente.

“Não há punhos de camisa, não há concerto de rock e não há dinheiro”, adiantam os organizadores desta campanha global, a decorrer actualmente no Twitter, Facebook e You Tube. “Somos apenas nós, os cientistas, o vírus e tu”. A linguagem é directa e informal, a condizer com as tácticas do chamado marketing de guerrilha.

O escritor Alexander Masters e o jornalista Dominic Nutt garantem que montaram esta campanha em pouco mais do que uma semana. E o que estão a pedir aos cibernautas? Uma doação simbólica de 2 libras (cerca de 2,5 euros), perspectivando que um milhão de pessoas contribuam para cumprir o objectivo central do iCancer.

Os tumores neuro-endócrinos (NET) são cancros de glândulas que libertam hormonas como insulina, adrenalina e serotonina sob o controlo do sistema nervoso, podendo espalhar-se por todo o corpo. “São assassinos silenciosos”, alertam os promotores da campanha – Masters e Nutt, este último vítima desta doença. Masters, autor do bestseller “Stuart: A life Backwards” decidiu envolver-se na campanha iCancer – que tem como slogan “As pessoas antes do lucro”— quando foi diagnosticado um cancro deste tipo, incurável, a um amigo próximo.

“Estou profundamente frustrado. Há um tratamento potencial – um vírus que destrói este cancro em experiências de laboratório. Mas agora está num frigorífico num laboratório de investigação na Suécia à espera de ser testado em humanos”, afirma Masters.

A ideia é que, com o dinheiro angariado, a equipa de investigação por trás deste tratamento, liderada pelo professor Magnus  Essand, criador do vírus, possa partir para estes ensaios em humanos, e as farmacêuticas possam assumir o controlo do processo de desenvolvimento de um medicamento que prolongue “significativamente” a vida dos milhares de pessoas que padecem deste cancro.

E como se pode participar nesta campanha? O público é encorajado a seguir @iCancer no Twitter e “tuitar” detalhes sobre a campanha, disseminando-a, usando o canal #iCancer. Cada pessoa deve doar 2 libras esterlinas (cerca de 2,5 euros), usando os links para o site de “crowdsourcing”, a partir do feed do Twitter, da página do Facebook e do YouTube.

 

Uma campanha “inteligente” e/ou questionável?

“A campanha é inteligente ao capitalizar o aniversário da morte de Steve Jobs”, o que pode “atrair uma cobertura alargada nas redes sociais”, defende o portal ThirdSector (Reino Unido) que escolheu a iCancer como “A Campanha Digital da Semana”. O mínimo da doação “vai parecer viável para as pessoas a considerarem”, sendo que “o sucesso desta campanha poderá também levar a mais exemplos de angariação de fundos de crowdsourcing deste tipo”

Por outro lado, há a questão levantada pelo jornal britânico The Guardian. “Como deve ser o público envolvido na decisão do financiamento da investigação científica?” Directamente, através do “poder dos social media”, como defendem os organizadores da iCancer?

A economista Mariana Mazzucato escreve no portal The Entrepreneurial State que, as empresas privadas e os capitalistas de risco são muitas vezes relutantes em investir em tecnologias que não têm um caminho claro para um produto que venha a trazer lucros, preferindo o sector público suportar os riscos do Desenvolvimento numa fase inicial. Neste caso específico, o que se sucedeu é que o governo sueco não apoia ensaios clínicos em humanos.

“Os organizadores [desta campanha] estão a experimentar e a descobrir também. A campanha é realista no que toca às perspectivas de sucesso da terapia experimental, mas também tem uma inocência encantadora”, escreve Stephen Curry, professor de Biologia Estrutural no Imperial College, num artigo de opinião publicado ontem no The Guardian.

E onde fica Steve Jobs, o co-fundador da Apple e criador de uma série de invenções tecnológicas, nesta história? “O que teria feito Steve Jobs disto? Talvez esteja a sorrir com a abordagem inovadora e disruptiva adoptada pela campanha, enquanto se retrai com o nome iCancer, que imprudentemente imita os nomes de vários produtos Apple”, especula Curry.

 

Municípios portugueses aderem à Semana Europeia da Mobilidade

 

“No bom caminho” é o tema da 11ª edição da Semana Europeia da Mobilidade, que começou ontem e culmina no Dia Europeu Sem Carros, no sábado. Caminhadas nocturnas, corridas de carros ecológicos, cidadãos transformados em fiscais de trânsito são algumas das propostas dos 59 municípios portugueses que vão dizer “presente” neste certame.  

Reduzir o tráfego rodoviário e o uso do automóvel, promover os modos de transporte alternativos, como a bicicleta ou os transportes colectivos, envolvendo os cidadãos no processo de planeamento sustentável de mobilidade urbana. Na essência, são estes os objectivos subjacentes a esta iniciativa, promovida desde 2002, pela Comissão Europeia.

Janez Potocnik, Comissário Europeu responsável pelo Ambiente, lembra que o “bom caminho” preconizado pela Comissão para a Europa passa por “trazer às cidades mais mobilidade, melhor qualidade de ar, menos emissões, menos ruído e um ambiente urbano mais saudável”.

Em Portugal, estão agendadas iniciativas por todo o país para marcar a efeméride. As câmaras municipais de Évora, Tomar, Guarda, Porto, Santarém, Torres Vedras, Lisboa, entre outras, têm em marcha uma série de acções de sensibilização destinadas à população em geral e às autoridades locais, para lembrar que o tráfego rodoviário não faz parte da solução.

Por exemplo, a autarquia da Guarda promove uma caminhada urbana nocturna, circuitos de bicicletas, uma acção de orientação fotográfica no centro histórico e karts a pedal.

Em Évora os jovens vão encarnar o papel de fiscais de trânsito, no âmbito de uma iniciativa de promoção das boas práticas de estacionamento e de consciência cívica.

Santarém, por sua vez, vai ter a sua Avenida José Saramago interdita ao trânsito e pede aos cidadãos que “poupem nas suas deslocações e optem por meios alternativos”, anuncia a Agência Lusa.

No Porto haverá um seminário alusivo à “Mobilidade Sustentável”. Já em Lisboa, a autarquia desafiou os munícipes a irem de bicicleta para o trabalho sexta-feira.

Em Tomar, haverá prémios para o “Transporte mais Eco-louco de Sempre”. Carros movidos a combustível não podem entrar na corrida – apenas carrinhos de rolamentos, bicicletas antigas e modernas, bem como outros veículos caseiros.

 

Prémio da Semana da Mobilidade

A Semana Europeia da Mobilidade surgiu em 2002 para proporcionar um “ambiente urbano mais agradável e saudável para os cidadãos”, com vista a reduzir o congestionamento e a promover modos de transporte sustentáveis e não motorizados.

Nesse âmbito, a Comissão Europeia continua a atribuir o Prémio da Semana Europeia da Mobilidade a localidades que lancem as campanhas mais inovadoras. Em avaliação estão também a qualidade das actividades associadas ao tema anual (“No bom caminho” é o tema de 2012) e as medidas promovidas pelas autarquias.

No ano passado o município vencedor foi Bolonha, por ter organizado um fim-de-semana sem carros, em vez de um só dia. Além disso, um plano de expansão da rede urbana de ciclovias para 130 quilómetros e a instalação de pontos de recarga de veículos eléctricos como medidas permanentes desta cidade italiana valeram-lhe a distinção.

Em Portugal, Almada venceu o Prémio da Semana Europeia da Mobilidade em 2010, entre as 2221 cidades mundiais participantes (destas, 66 eram portuguesas).

A Semana Europeia da Mobilidade apoia “o desenvolvimento de zonas pedonais e de infra-estruturas para ciclistas, promove a melhoria dos transportes públicos e reúne comunidades locais”, lembra o vice-presidente da Comissão Europeia, Siim Kallas.

Amanhã, dia 18, será lançada a campanha alusiva a esta Semana, no âmbito do evento “Duas Rodas Sustentáveis”, onde autarquias e o público poderão ser ouvidos durante um debate sobre mobilidade urbana sustentável.

Em 2011 participaram neste certame 2268 localidades de todo o mundo. Todas as autarquias europeias podem subscrever a Carta da Semana Europeia da Mobilidade e publicar os seus programas em http://www.mobilityweek.eu/.

O comunicado de imprensa da Comissão Europeia pode ser lido na íntegra aqui.

 

Drogas | Estudo revela que mulheres são discriminadas em campanhas de prevenção

As campanhas de prevenção de consumo de drogas não estão pensadas para que cheguem de igual modo a mulheres e homens, o que pode levar a que a sua eficácia seja diferente. Esta é a principal conclusão de um estudo das campanhas publicitárias  difundidas em Espanha entre 2002 e 2011. Os resultados desta análise centrada na perspectiva do género foram divulgados ontem pela UNAD.

Estudo assinala invisibilidade da mulher nas campanhas de prevenção

A análise qualitativa de campanhas de âmbito estatal relativas à prevenção de consumo de drogas e a problemas associados foi realizada por um grupo multidisciplinar de especialistas nas áreas do Género, Droga, Prevenção, Publicidade e Comunicação, tendo sido coordenada pela Unión de Asociaciones y Entidades de Atención al Drogodependiente (UNAD).

E qual é o objectivo do estudo? “Melhorar a eficácia das campanhas de prevenção do consumo de drogas no colectivo de mulheres”, pode-se ler no site desta organização não-governamental sedeada em Madrid, numa altura em que há um incremento da “feminização do consumo de drogas e de adições de substâncias psicoactivas”, legais e ilegais.

Vários estudos recentes revelam que o consumo de drogas e álcool está a aumentar entre as mulheres. A UNAD lembra que, na última década, também cresceu o número de mulheres que recorrem a centros de atenção especializada por reconhecerem um problema de adição. Em 2011, nos centros da organização espanhola, 33,56% das pessoas atendidas eram mulheres.

Segundo a Encuesta Estatal sobre uso de Drogas en Enseñanzas Secundarias (ESTUDES), análise focada em estudantes dos 14 aos 18 anos em escolas secundárias, em 1994 o consumo de canábis entre estudantes do sexo feminino era de 18%, em 2008 de 32,8%. A mesma tendência se dá no caso do consumo de cocaína. Passou de 1,9% em 1994 para 3,8% em 2008. Já no consumo de álcool e hipnosedativos, as jovens ultrapassam os jovens.

A UNAD aponta, mesmo considerando que a questão do consumo associado ao género ainda foi pouco estudada, como uma das causas para estes números “a inadequação das campanhas de prevenção que se desenvolvem, tanto por parte das administrações públicas, como pelas organizações sociais”.

 

Metodologia do estudo

Sob avaliação nesta análise estiveram textos, imagens, grafismo, contextos, situações e relações incluídos em campanhas de marketing social estatais com a finalidade de inspirar a mudança de comportamentos e atitudes. “Reduzir o consumo de drogas e aumentar a idade de início do consumo” foram identificados pela UNAD como os objectivos das campanhas de “publicidade de prevenção” estudadas.

Numa primeira fase, foram recolhidas todas as campanhas de prevenção de consumo de drogas em suporte informático que iam ser objecto de estudo e envidas para cada profissional para avaliação. Após a aplicação de dois questionários – um para avaliar cada uma das campanhas e outro para fazer uma avaliação global – ocorreram reuniões com toda a equipa de peritos envolvidos, que fizeram uma análise exaustiva de cada campanha. Nestes encontros foram divulgadas as respostas aos questionários, debateram-se mensagens publicitárias e foram compiladas conclusões. Por fim, foram estudadas e elencadas em conjunto propostas para futuras campanhas de publicidade.

 

UNAD propõe linguagem inclusiva e monitorização das campanhas

Se a primeira conclusão destacada nesta análise reconhece que as campanhas de prevenção de consumo de drogas não estão pensadas para que cheguem de igual modo a mulheres e homens, a segunda – ligada à anterior – é que a linguagem utilizada nas campanhas reforça os papéis tradicionais do homem e da mulher.

Os resultados dos questionários respondidos por peritos das áreas dos media, dos estudos de género e das drogas apontam para a percepção consensual de que a maioria das campanhas não tem em conta a questão do género, e que, aliás, não é notada nenhuma “evolução positiva significativa” nesta matéria na década estudada. Por exemplo, nenhum dos intervenientes no estudo disse conhecer campanhas específicas para mulheres.

Outras notas dos especialistas: o consumo diferenciado entre homens e mulheres não está presente na maioria das campanhas e as campanhas parecem claramente realizadas por homens. A invisibilidade das mulheres neste tipo de publicidade não se coaduna com a realidade dos números, defende o estudo. As últimas campanhas contra o álcool dirigidas a jovens mostram sempre um rapaz com claros indícios de embriaguez, quando os últimos dados revelam que a prevalência de consumo de álcool nas raparigas supera a dos rapazes.

Os estereótipos, arquétipos e papéis sexuais e sociais são mencionados várias vezes ao longo do relatório. Foi notado que os vídeos mostram sempre a imagem da mãe sofredora, vulnerável, a acompanhar mensagens de culpa. Nas campanhas é ressaltado um “estereótipo determinado”, associando o consumo a rapazes e raparigas com bom ar e com nível económico. Os especialistas lembram que a voz off masculina, nos anúncios, transmite ideias de autoridade e credibilidade, enquanto a voz off feminina expressa angústia, ansiedade e preocupação.

Com vista à realização de campanhas mais inclusivas, o estudo aponta como propostas “pôr enfâse no consumo problemático de substâncias cuja adição é maior em mulheres”, como é o caso dos psicofármacos, e eliminar das campanhas publicitárias o cânone da beleza, que não corresponde à realidade.

Recomendar a utilização de linguagem não sexista, ter em conta novos modelos de família e criar um organismo específico responsável por realizar pareceres sobre o impacto do género na publicidade institucional são outras das sugestões do estudo divulgado ontem pelo UNAD. Bem como a coordenação entre a empresa publicitária, a instituição que põe em marcha a campanha e um organismo específico para avaliar se as campanhas contemplam a questão do género, e a influência junto do Ministério da Saúde, dos Serviços Sociais e da Igualdade para fazer cumprir a lei da igualdade na política da saúde.

 

Outros dados do estudo

– Muitas substâncias não são abordadas nas campanhas

– As campanhas mostram mensagens muito dramáticas

– É necessário diferenciar consumo esporádico do abusivo

– Existem muito poucas campanhas de prevenção dirigidas aos consumidores