Como “desafiar a angariação de fundos tradicional”?

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“As organizações sem fins lucrativos têm que se adaptar às dinâmicas em mudança” no terceiro sector, se querem ser “bem-sucedidas”, e essa adaptação passa por uma “transformação” no ramo da angariação de fundos, defende Jim Coe, num artigo de opinião no jornal britânico The Guardian. No mesmo diário, Nicolle Wilkinson, gestora na NESTA, explica, recorrendo a exemplos de projectos em marcha, como se pode “desafiar a angariação tradicional” com a ajuda de um fundo de inovação.

Segundo um relatório recente da Charities Aid Foundation, o terceiro sector enfrenta vários desafios. Um dos mais prementes é responder às quebras de receitas através da angariação de fundos. Uma das potenciais explicações para este estado da arte é que “na prática, a integração da campanha e do marketing é alvo de uma fraca estratégia, sendo mal implementada”, na opinião de Jim Coe, comentador versado em Campanhas e Mudança Social e Política, que em Dezembro de 2012 assinou, no The Guardian, o artigo As Tendências sociais, tecnológicas e políticas estão a transformar a Angariação de Fundos.

Nicolle Wilkinson, gestora de desenvolvimento em “Innovation in Giving” na NESTA, por sua vez, inicia o seu artigo As Instituições de Solidariedade Social de topo estão a descobrir formas inovadoras de Angariação de Fundos com perguntas. “Como podem [estas organizações] atrair novos doadores, manter o envolvimento dos actuais doadores e obter doações mais regulares?”. “Desafiando a angariação de fundos tradicional”, responde. O ponto de chegada das campanhas, esse, mantém-se intacto, de acordo com Wilkinson: “envolver mais pessoas” [e incitá-las] a contribuírem com o seu tempo, as suas competências, com dinheiro e recursos “com o objectivo final de escalar o seu impacto de beneficência.

 

Envelhecimento activo: Jardinar em troca de uma doação para a Age UK

Neste contexto, Wilkinson cita dez exemplos de instituições que estão a levar a cabo projectos de “inovação social”, com o apoio de um fundo da NESTA e do “cabinet office” do governo britânico.

Entre elas está a Age UK, que se aliou à plataforma de partilha Ecomodo para desenvolver uma nova plataforma de doação, com vista a responder a dois desafios: captar novos contribuintes para apoiar os seus serviços e encorajar as pessoas acima dos 50 anos a envolverem-se na prática da angariação de fundos. Uma prática possível: um jardineiro reformado pode oferecer algumas horas de serviços de jardinagem em troca de uma doação à Age UK pelo dono do jardim.

Também o “The Big Family Day Off”, projecto da National Trust, está a ser co-financiado pela NESTA e pelo governo britânico, como forma de dar resposta à já diagnosticada relutância dos britânicos em dispensarem o “tempo precioso da família” para o voluntariado. Em que é que consiste este “Grande Dia”? Os empregadores que aderirem a esta iniciativa dispensarão os seus empregados um dia por ano para fazerem voluntariado com a sua família num projecto de solidariedade social local. “Além de ajudar a instituição, e potencialmente outras, esta [acção] dá a oportunidade às famílias de passarem mais tempo de qualidade juntos e adquirirem novas competências”.

 

O poder de “adaptação” de novos movimentos sociais

“Várias ONGs estão atentas às tendências, algumas estão a trabalhar efectivamente com novos movimentos” e novos procedimentos, estando já a “operar segundo modelos mais adaptáveis”, defende Jim Coe, num artigo em que não poupa este tipo de organizações.

Por outro lado, o comentador cita, neste contexto, novas formas de comunicar e de promover campanhas, através de movimentos sociais ou plataformas onlineUK Uncut, Change.org e MoveYourMoney – que estão a “introduzir mudanças fundamentais no ‘quadro completo’ das campanhas, trazendo consigo desafios, mas também oportunidades”. Outro exemplo mencionado é o do movimento Occupy, que, segundo o autor, “opera de uma maneira diferente e mais convincente: pessoas à procura de soluções nas suas próprias mãos”.

O autor defende ainda uma atenção redobrada aos social media, que “oferecem possibilidades de respostas radicalmente diferentes, e formas de trabalhar mais rápidas e mais descentralizadas”. Entre outras virtudes destes novos meios estão, para Coe, a amplificação na difusão de ideias e a possibilidade de fazer novas conexões, que antes não eram comuns.

A fechar o artigo, é reforçada a ideia de que mantém-se “uma necessidade primordial” para o sector das ONGs: adaptar-se a novos modelos que permitam uma eficácia maior da campanha a nível interno e ligar-se mais efectivamente a novos movimentos [responsáveis por novas] campanhas”.

iCancer: Campanha contra cancro que atingiu Jobs já está online e não é da Apple

iCancer é uma campanha global de angariação de fundos em regime de “crowdfunding”, com vista a prolongar a vida de pessoas com tumor neuro-endócrino. Nem o nome escolhido, nem a data de lançamento são inocentes. Steve Jobs, criador do iMac, morreu há um ano com um cancro deste tipo no pâncreas. As contribuições podem ser efectuadas até 16 de Novembro nas redes sociais.

A 39 dias do fecho desta campanha digital de “crowfunding”, 312 pessoas já doaram cerca de 45 mil euros. O objectivo final é angariar 2 milhões de libras [cerca 2,5 milhões de euros], o montante necessário para a primeira fase dos ensaios em humanos de um vírus modificado, actualmente “preso” num frigorífico na Suécia. Já foi experimentado com sucesso em ratos e pode vir a destruir um cancro cuja incidência está a aumentar a passos largos em todo o mundo e cujo diagnóstico muitas vezes acontece tardiamente.

“Não há punhos de camisa, não há concerto de rock e não há dinheiro”, adiantam os organizadores desta campanha global, a decorrer actualmente no Twitter, Facebook e You Tube. “Somos apenas nós, os cientistas, o vírus e tu”. A linguagem é directa e informal, a condizer com as tácticas do chamado marketing de guerrilha.

O escritor Alexander Masters e o jornalista Dominic Nutt garantem que montaram esta campanha em pouco mais do que uma semana. E o que estão a pedir aos cibernautas? Uma doação simbólica de 2 libras (cerca de 2,5 euros), perspectivando que um milhão de pessoas contribuam para cumprir o objectivo central do iCancer.

Os tumores neuro-endócrinos (NET) são cancros de glândulas que libertam hormonas como insulina, adrenalina e serotonina sob o controlo do sistema nervoso, podendo espalhar-se por todo o corpo. “São assassinos silenciosos”, alertam os promotores da campanha – Masters e Nutt, este último vítima desta doença. Masters, autor do bestseller “Stuart: A life Backwards” decidiu envolver-se na campanha iCancer – que tem como slogan “As pessoas antes do lucro”— quando foi diagnosticado um cancro deste tipo, incurável, a um amigo próximo.

“Estou profundamente frustrado. Há um tratamento potencial – um vírus que destrói este cancro em experiências de laboratório. Mas agora está num frigorífico num laboratório de investigação na Suécia à espera de ser testado em humanos”, afirma Masters.

A ideia é que, com o dinheiro angariado, a equipa de investigação por trás deste tratamento, liderada pelo professor Magnus  Essand, criador do vírus, possa partir para estes ensaios em humanos, e as farmacêuticas possam assumir o controlo do processo de desenvolvimento de um medicamento que prolongue “significativamente” a vida dos milhares de pessoas que padecem deste cancro.

E como se pode participar nesta campanha? O público é encorajado a seguir @iCancer no Twitter e “tuitar” detalhes sobre a campanha, disseminando-a, usando o canal #iCancer. Cada pessoa deve doar 2 libras esterlinas (cerca de 2,5 euros), usando os links para o site de “crowdsourcing”, a partir do feed do Twitter, da página do Facebook e do YouTube.

 

Uma campanha “inteligente” e/ou questionável?

“A campanha é inteligente ao capitalizar o aniversário da morte de Steve Jobs”, o que pode “atrair uma cobertura alargada nas redes sociais”, defende o portal ThirdSector (Reino Unido) que escolheu a iCancer como “A Campanha Digital da Semana”. O mínimo da doação “vai parecer viável para as pessoas a considerarem”, sendo que “o sucesso desta campanha poderá também levar a mais exemplos de angariação de fundos de crowdsourcing deste tipo”

Por outro lado, há a questão levantada pelo jornal britânico The Guardian. “Como deve ser o público envolvido na decisão do financiamento da investigação científica?” Directamente, através do “poder dos social media”, como defendem os organizadores da iCancer?

A economista Mariana Mazzucato escreve no portal The Entrepreneurial State que, as empresas privadas e os capitalistas de risco são muitas vezes relutantes em investir em tecnologias que não têm um caminho claro para um produto que venha a trazer lucros, preferindo o sector público suportar os riscos do Desenvolvimento numa fase inicial. Neste caso específico, o que se sucedeu é que o governo sueco não apoia ensaios clínicos em humanos.

“Os organizadores [desta campanha] estão a experimentar e a descobrir também. A campanha é realista no que toca às perspectivas de sucesso da terapia experimental, mas também tem uma inocência encantadora”, escreve Stephen Curry, professor de Biologia Estrutural no Imperial College, num artigo de opinião publicado ontem no The Guardian.

E onde fica Steve Jobs, o co-fundador da Apple e criador de uma série de invenções tecnológicas, nesta história? “O que teria feito Steve Jobs disto? Talvez esteja a sorrir com a abordagem inovadora e disruptiva adoptada pela campanha, enquanto se retrai com o nome iCancer, que imprudentemente imita os nomes de vários produtos Apple”, especula Curry.

 

Rede Dianova em campanha de solidariedade com Dianova Nicarágua

A Rede Dianova lançou uma campanha em Itália e Portugal para angariação de fundos (em bens e equipamentos) para os 400 estudantes acolhidos todos os anos pelo Centro de Educación Integral Esther Del Río-Las María, na Nicarágua. O resultado desta campanha ultrapassou os 50 mil euros.

Entre Dezembro e Junho de 2012, a Dianova Portugal e a Dianova Itália levaram a cabo uma campanha de Solidariedade a nível angariação de fundos (bens e equipamentos) para o colégio Esther Del Río Las Marías, gerido pela Dianova na Nicarágua. Nesta campanha foram recolhidos, entre outros, materiais educativos, produtos de higiene e de primeira necessidade, roupa e calçado, com um valor estimado em mais de 50 mil euros. Um contentor marítimo sairá a partir do porto italiano de Génova, tendo como destino Nicarágua.

O centro educativo Esther Del Río Las Marías dedica-se a melhorar as condições de escolarização e o futuro das crianças em zonas rurais da Nicarágua, as mais afectadas pela pobreza e pela violência endémica. Aprovado pelo Ministério da Educação de Nicarágua e afiliado à rede de Escolas Associadas da UNESCO (Rede PEA), o centro educativo Esther Del Río Las Marías  oferece uma educação gratuita aos mais desfavorecidos. Além disso, os estudantes em regime de internato têm um apoio integral em termos de habitação, alimentação, materiais educativos ou de acompanhamento psicológico e de saúde. Para mais informações visite o site http://www.dianovanicaragua.org.ni/.

Parceira oficial da UNESCO e ONG com Estatuto Consultivo Especial junto do Conselho Económico e Social das Nações Unidas, a Dianova é conformada por uma rede de Organizações Sociais, presente em onze países da Europa e Américas. A Rede Dianova desenvolve programas e projectos inovadores nas áreas da educação, juventude, prevenção e tratamento das toxicodependências, inclusão social bem como em áreas de desenvolvimento sociocomunitário e formação.

Há mais doadores online, mas métodos tradicionais de doação prevalecem

Um estudo recente dá conta de que apenas 30% das dádivas a instituições de solidariedade social são efectuadas através de métodos digitais, contra 70% realizadas através de métodos mais tradicionais, como o débito directo e o dinheiro vivo. Em plena era digital, há tendências reveladas nesta análise – que abrange 500 organizações de solidariedade de pequena, média e grande dimensões – que põem a nu o desfasamento entre a evolução dos doadores virtuais e a persistente aposta das instituições em métodos offline de transferência de donativos.

 

Estudo da Give As You Live focou-se nos índices de audiência e na frequência das comunicações online

 

Publicado nesta segunda-feira, o Digital Giving Review 2012 – estudo realizado pela plataforma online Give As You Live, em parceria com o Institute of Fundraising, com o mote de “desvendar as últimas tendências de angariação de fundos digital” – reporta uma novidade: as audiências online são agora superiores às audiências tradicionais, que transferem os seus donativos longe das plataformas digitais (51% e 49%, respectivamente).

“Com as audiências off e online ao mesmo nível, as instituições de solidariedade social necessitam de converter o envolvimento do aderente online em apoio financeiro”, declara ao portal ThirdSector.co.uk Polly Gowers, chefe executiva e fundadora da companhia de angariação de fundos e de tecnologia Everyclick, que guarnece a Give As You Live site que permite os compradores online direccionar as suas contribuições dos retalhistas para as instituições de solidariedade.

A propósito do desfasamento entre a evolução dos doadores digitais e a ainda acentuada aposta das instituições de solidariedade social em métodos offline de transferência de donativos, Gower acrescenta: “Se se está a comunicar [com os aderentes à angariação de fundos] via telefone ou correio, mas também a falar com eles na Internet, é preferível parar de usar o método offline, porque é mais dispendioso”.

 

Redes sociais divulgam mais do que capturam doações

E onde se efectuam estas doações na Internet? A maioria – 90% – das dádivas online são efectuadas através de plataformas de doação como a JustGiving. Apenas 3% das doações online ocorrem no Facebook. O Twitter nem sequer entra nestas contas. Resta referir que o Facebook foi lançado em 2004 e o primeiro “tweet” foi enviado em 2006. Mas o relatório enfatiza que, em menos de uma década, as pessoas contactadas através destas duas redes sociais atingiram 35% das doações da audiência total.

A pesquisa que abrangeu 500 instituições revela ainda que os aderentes são contactados mais frequentemente via on do que offline. Cerca de metade destas organizações – 47% – comunica com as suas audiências diariamente através das redes sociais.

De entre as grandes instituições inquiridas, 80% enviam diariamente actualizações de Facebook e tweets. O estudo refere ainda que 56% das audiências das pequenas organizações estão online. Já as grandes organizações analisadas apenas registam 39% de audiência na Internet.

As principais barreiras para uma angariação de fundos online bem-sucedida, apontadas neste levantamento, passam pelos recursos internos (37&%) e pela  resistência do doador (24%).

Neste estudo, os dados referentes aos doadores são baseados nos contactos reportados através do e-mail e em redes sociais como o Twitter e o Facebook. Por sua vez, as audiências offline foram contabilizadas de acordo com os contactos offline que constam das bases de dados das instituições estudadas.

Em Outubro, a Give As You Live vai inquirir os doadores numa nova sondagem sobre a frequência das dádivas e o conteúdo das comunicações, procurando auxiliar os angariadores a compreender o “balanço crítico entre canal, frequência e mensagem”, avança o relatório do Digital Giving Review 2012, lançado nesta segunda-feira, data de abertura da convenção anual do Institute of Fundraising.