Mês da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância: Campanha nacional sobre rodas

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Abril é o Mês da Prevenção dos Maus-Tratos na Infância. Até dia 30, vários concelhos do país vão assinalá-lo, através de uma campanha de sensibilização, desdobrada em iniciativas culturais e educacionais e co-organizada pela Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco [CNPCJR], pelas autarquias e associações a trabalhar nesta área.

Consciencializar a comunidade para a importância da prevenção dos maus-tratos na infância, do fortalecimento das famílias no sentido de uma parentalidade positiva e ainda do fundamental envolvimento comunitário”. É este o objectivo da campanha que reúne mais de 70 Comissões de Protecção de Crianças e Jovens que, localmente, estão a promover actividades – entre ciclos de cinema, debates, caminhadas e produção de laços azuis, símbolo da causa. Trofa, Santo Tirso, Lisboa, Vizela estão entre outros municípios que se associaram à campanha a nível nacional.

Hoje, dia 5, por exemplo, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras, Lisboa, tem lugar a primeira sessão de quatro de um ciclo de cinema alusivo ao tema, com a projecção de “Jaime” [1999], um filme de António Pedro Vasconcelos. Destinadas à comunidade em geral, crianças e jovens, e técnicos da área da protecção da infância, estas sessões de cinema são sempre seguidas de um debate. Na abertura, esta noite, pelas 20 horas, estarão presentes, além do realizador de “Jaime”, a vereadora municipal Helena Roseta, Armando Leandro, da CNPCJR, e Margarida Martins, da Associação de Mulheres Contra a Violência.

“Laço Branco”, de Michael Haneke, e “Sangue do Meu Sangue”, de João Canijo, são os filmes que se seguem no âmbito deste ciclo de cinema, que termina a 23 de Abril com a projecção de curtas-metragens realizadas por crianças e adolescentes de várias escolas e outras entidades do país, no âmbito das oficinas de iniciação ao cinema orientadas pela Associação Os Filhos de Lumière. Durante o mês de Abril, haverá ainda tempo para uma “Semana do Filme nas Escolas”, destinada a alunos dos 2º e 3º ciclos das escolas do concelho de Lisboa.

A norte, em Santo Tirso, para este domingo, dia 7, está agendada uma Caminhada pela Prevenção, que consistirá num passeio pedonal pelas margens do Rio Ave. Acções de sensibilização nas escolas, eventos sociais e desportivos, bem como a divulgação na comunicação social de notícias e artigos sobre o trabalho desenvolvido no concelho na área da prevenção e acompanhamento das crianças em perigo, são algumas das várias iniciativas preparadas no âmbito do Mês de Prevenção dos Maus-Tratos na Infância.

Em Vizela, também a nível curricular, este drama pessoal, familiar e social não será esquecido. Numa entrada do blogue da Biblioteca da Escola Básica Caldas de Vizela pode-se ler que “um panfleto informativo da CPCJ será lido e interpretado nas aulas de Educação Moral Religiosa e Católica, seguindo-se a visualização do filme ‘O Bom Rebelde’. Serão [ainda] produzidos laços azuis”. Todo o material produzido durante este mês será posteriormente divulgado pela CPCJ na Feira do Livro promovida pela Câmara de Vizela, acrescenta o blogue.

Call To Action (III): Uma homenagem ao “erguer” das mulheres do Congo

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E porquê uma acção de consciencialização em formato “dança”? A ideia de uma campanha global surgiu depois de Eve Ensler, autora d’”Os Monólogos da Vagina”, ter visitado a comunidade de Bukavu na República Democrática do Congo, conhecida como a capital da violação do mundo, e onde fundou um centro para vítimas de violação.

Conta a dramaturga e activista, num artigo publicado hoje no diário Huffingtonpost, que se surpreendeu com a forma como as mulheres que ali encontrou, vulneráveis face à violência, “traumatizadas, doentes, mudas e exaustas”, saravam as feridas… através da dança.

“Dançar insta a assumirmos um espaço. Não há uma direcção estabelecida, mas vamos lá juntos. [Dançar] é perigoso, alegre, sexual, sagrado, disruptivo. Quebra as regras. Pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer hora, e com toda a gente”, pode-se ler na secção das “Perguntas Mais Frequentes” da página oficial de “One Billion Rising” na Internet.

Toda a gente é convidada a participar na dança, “homens e mulheres”, porque “a violência contra as mulheres e raparigas não é apenas uma questão das mulheres, é uma questão humana”, escreve a organização no mesmo sítio.

Já em 2013, Ensler voltou a visitar a mesma comunidade no Congo, “onde teve o privilégio de testemunhar à primeira aula da ‘Cidade da Alegria’, um centro revolucionário de formação, de terapia e liderança para mulheres do Congo que sofreram algumas das piores atrocidades no mundo”. “Elas estavam a erguer-se diante de nós, a sua determinação [era] contagiosa e perseverante”.

Esta acção global é realizada precisamente “em honra das mulheres do Congo que estão a levantar-se face ao impossível”. Há cerca de uma hora, Eve dizia, a partir da República Democrática do Congo, no The Guardian, que a resposta “maciça” ao apelo do “One Billion Rising” está “para além dos [seus] sonhos mais desenfreados”.

E acrescentou que “no Cairo, as mulheres estão a dançar, mas assustadas com a Irmandade Muçulmana. Elas disseram-me que os seus corações estão a bater forte, mas que estavam a dançar, ainda assim”.

Social Change Film Festival | Era uma vez a Mudança Social … com vozes indígenas

Até domingo, Nova Orleães [EUA] acolhe o Social Change Film Festival. “Água: Desafios e Soluções” é o tema central da segunda edição de um certame de cinco dias que pretende responder a desafios sociais e ambientais a nível global, através do cinema e do documentário. Este ano, entre os mais de 50 filmes enviados por realizadores indígenas, sobre identidade cultural, ambiente, suicídio juvenil e toxicodependência, dois foram seleccionados para exibição. Chamam-se “Cry Rock” e “March Point”.

 

Este festival é “uma rede internacional de realizadores que expressam a necessidade de mudança social através das suas obras”, segundo um comunicado da organização First Peoples Worldwide (FPW), que este ano organizou, neste âmbito, o painel “Traditional Storytelling Using Modern Technology”.   Ou seja, um apelo aos realizadores e argumentistas para contarem as suas histórias e as das suas comunidades, daquelas à moda antiga, mas com câmaras de filmar e gadgets na mão.

Foram seleccionados pela FPW, no âmbito deste painel, os filmes “Cry Rock” e “March Point”.

O primeiro documenta a luta da realizadora estreante Nuxalk [Banchi Hanuse] na Columbia Britânica, no Canadá, pela preservação da língua, cultura e identidade dos nativos, em resposta ao colonialismo e à infracção pela cultura não-indígena.

O segundo conta a história de três adolescentes da tribo ameríndia “swinomish” a despertar para os impactos negativos das refinarias de petróleo nas suas comunidades no oeste do Estado de Washington. A realizadora, Tracy Rector, é co-fundadora da Longhouse Media, uma organização que promove o crescimento artístico e comunitário dos jovens realizadores indígenas.

 

Cry Rock (Trailer)

 

March Point (Excerto do filme)

 

“Histórias poderosas”

Neva Morrison, moderadora deste painel e directora da FPW, diz que viu mais de 50 filmes realizados por indígenas que lhe chegaram às mãos e diz ter sido inspirada por cada uma das propostas enviadas: “As histórias que eles partilharam são fantásticas. Fiquei comovida, até às lágrimas, com alguns [filmes], e outros fizeram-me rir, mas todos inspiraram-me e, porque estas histórias foram contadas, realizadas e editadas por pessoas indígenas nas suas próprias palavras, isto tornou-as mais poderosas e mais rigorosas. As duas seleccionadas para exibição no Social Change Film Festival merecem todo o reconhecimento que estão a receber hoje”. Por exemplo, “Cry Rock” venceu oito prémios desde que estreou no All Roads Film Festival da National Geographic, em Washington.

Além da exibição de filmes e dos painéis temáticos, constam ainda do cardápio do Social Change Film Festival “workshops” e palestras de profissionais da indústria de cinema sobre realização, distribuição, angariação de fundos e media relacionados com mudança social.

“Este festival continuará a ser um modo poderoso de as comunidades indígenas partilharem as suas histórias, dando-lhes a oportunidade de partilhar as suas lutas, sucessos – e mais importante – as suas soluções para um mundo melhor”, pode-se ler no comunicado de imprensa da First Peoples Worldwide.

A FPW é uma organização criada em 2005 que se tem dedicado a financiar projectos de desenvolvimento local nas comunidades indígenas em todo o mundo, procurando “criar pontes entre as nossas comunidades e as empresas, governos, académicos, ONGs e investidores das suas regiões”.

 

 

Fundos Europeus | “Well Spent” quer inspirar futuro da Política da Coesão

 

É uma campanha de “Lobbying Verde” que pretende influenciar os decisores políticos a elaborar um Orçamento da União Europeia para 2014-2020 generoso para as áreas da Sustentabilidade e do Desenvolvimento Regional. Como? Evocando bons exemplos recentes de aplicação de fundos europeus para as áreas dos Transportes, Resíduos, da Energia, Biodiversidade e Eco-construções nos 27 Estados-Membros. Entre eles, é citado o caso de sucesso do uso partilhado de bicicletas eléctricas em Águeda, Aveiro.  

 

“Pensa que todos os Fundos Europeus são subsídios, corrupção e mais estradas? Pense outra vez”. É assim que Connie Hedegaard, a Comissária Europeia para as Questões Climáticas, introduz na sua página da rede social Twitter a campanha Well Spent [Bem Gasto].

A campanha, assinada por uma troika de Organizações Não Governamentais [CEE Bankwatch Network, Friends of the Earth Europe e World Wide Fund for Nature], começa por retratar uma União Europeia a duas vozes na área do Ambiente. Por um lado, a Europa dos investimentos que promovem os combustíveis fósseis, “projectos de uso intensivo do carbono” e de “destruição da natureza”. Por outro, aquela que “às vezes vai pelo caminho certo”.

E de que falam estes activistas quando elogiam o “caminho certo”, “em direcção a uma Europa mais verde e a um mundo melhor”? Invocam “investimentos amigos do ambiente”, “exemplos excelentes de projectos em toda a União Europeia [em curso] que se devem tornar referências para a futura Política de Coesão”, que mapearam, a cor verde, e partilharam num site que serve de “sede” de campanha.

 

Próxima Estação: Uma economia europeia descarbonizada

 

 

O timing da elaboração e de difusão desta campanha não é inocente. Afinal, a discussão do Orçamento da União Europeia para o período 2014-2020 está à porta e é hora de fazer o balanço do que foi bem feito na Europa entre 2007 e 2013 em matéria de Políticas de Coesão, para justificar uma proposta de aplicação de 25% do próximo orçamento em “projectos e iniciativas direccionadas para uma economia descarbonizada em toda a Europa”.

O objectivo é persuadir a União Europeia a investir na replicação de algumas “boas práticas” em curso em vários Estados-Membros, com apoio de financiamento europeu, como a reconstrução de uma rota de migração de animais selvagens na área que separa os Alpes austríacos das Montanhas dos Cárpatos, a modernização da artéria central do metropolitano de Nápoles, a construção de novas habitações sociais energeticamente eficientes ou readaptação de antigas em França, ou a criação de uma rede de bicicletas eléctricas em Águeda, Portugal.

“Acreditamos que estes casos inspiradores [e] as nossas recomendações podem levar a uma replicação e a uma expansão destas histórias de sucesso e a incutir uma melhor aplicação do orçamento da União Europeia, que resulte em mais benefícios a longo-prazo”, pode ler-se no site oficial da Well Spent.

As expectativas deste “lobby verde” traduzem-se em números generosos, mas o discurso foca-se mais na palavra “investimento” do que na da “despesa”: As ONGs envolvidas nesta campanha acreditam que a Política de Coesão é uma “ferramenta de investimento para promover o desenvolvimento regional” e defendem que um terço do Orçamento “deve ser investido” em Política Regional. No período 2007-2013, o Orçamento para a Política de Coesão foi de 350 mil milhões de euros.

“Durante períodos de crise económica e ambiental, a Política de Coesão necessita de focar-se mais em conduzir investimentos que sejam sustentáveis e inovadores, que de facto beneficiem a população, envolvendo-a directamente na implementação e monitorização dos projectos”. Como? Assegurando “benefícios directos para a região ou comunidade beneficiária”, como “impactos ambientais positivos” e “benefícios económicos efectivos” – isto é, poupanças energéticas “substanciais” e criação e manutenção de postos de trabalho. E usando “sustentavelmente” recursos locais e procurando imprimir nos cidadãos envolvidos um “sentido de propriedade da Política de Coesão”, defende a campanha.

Entre as cinco propostas das três ONGs reunidas para inspirar ou influenciar políticos como Connie Hedegaard, está ainda a ambição de colocar o Desenvolvimento Sustentável no centro da Política de Coesão da União Europeia. Bem como um pedido aos decisores europeus para desenharem um orçamento que apoie medidas para a protecção ambiental e eficiência de recursos, incluindo a protecção da biodiversidade e ecossistemas em todas as regiões da Europa.

Entrevista a Fabio Bernabei [III]: Falar em consumo “responsável” da canábis é “desafiar o princípio da não-contradição”

 

A lei Portuguesa de descriminalização do consumo e de posse de drogas ilícitas em pequenas doses, elogiada internacionalmente.  E a “contradição” do consumo de drogas ”responsável”. Foram estes os principais tópicos abordados na recta final da entrevista a Fabio Bernabei. É com esta ideia com que o director do Osservatorio Droga e autor de “Cannabis Medica: 100 Risposte sull’uso terapeutico della Marijuana” conclui a conversa: “Para cada possível, ou suposta, necessidade terapêutica solucionada por algum composto de canábis, a ciência médica contemporânea dispõe de muitos fármacos baratos, seguros e eficazes”.

 

Dianova Portugal: Qual é a sua opinião sobre a lei portuguesa que descrimina [não legaliza] o consumo e a posse de todas as drogas ilícitas em pequenas doses? Um relatório do Cato Institute refere que o “quadro legal da descriminalização tem sido um sucesso retumbante, com lições evidentes que devem guiar os debates das políticas de drogas em todo o mundo”.

Fabio Bernabei: O Cato Institute convidou o Procurador Gleen Greenwald para conduzir um estudo da política da droga em Portugal. Depois de apenas três semanas em Portugal, Greenwald regressou aos Estados Unidos e escreveu um livro caracterizando a política de drogas portuguesa como um grande sucesso. Havia numerosos problemas com o estudo. Greenwald foi selectivo na categoria de “idade” que usou, ignorando em grande parte o grupo entre os 20 e os 24 anos no qual o consumo aumentou 50%.

O doutor Manuel Coelho, meu amigo e colega no Drug Watch International, presidente da Associação para um Portugal Livre de Drogas, numa análise aos dados do estudo, indicava que “se olharmos para os números relacionados com a prevalência na população total portuguesa, não há uma única categoria para as drogas, nem uma, que tenha decrescido desde 2001. Entre 2001 e 2007, o consumo de droga em Portugal aumentou cerca de 4,2% em termos absolutos”.

Portugal mantém-se como país com a mais elevada incidência de VIH relacionada com o CDI (consumo de drogas por via injectável) e é o único país a registar um recente aumento. Além disso, as investigações da OEDT de 2011 mostram uma situação estável no que diz respeito ao consumo de canábis em Portugal, mas um possível aumento no consumo de cocaína entre jovens adultos.

O país tem ainda altos níveis no que toca ao problema do consumo de drogas e da infecção por VIH e não demonstra desenvolvimentos específicos na sua situação relativamente à droga que o distinguiria claramente de outros países europeus que têm uma política diferente. Isto é sustentado pelo relatório do Gabinete da Política Nacional de Controlo de Drogas da Casa Branca (ONDCP) de 2011, que reviu o “Relatório Cato” e considerou-o falho de precisão.

 

Dianova Portugal: A NORML [Organização Nacional para a Reforma das Leis da Marijuana] tem um quadro de “princípios de consumo responsável de canábis”. Dentro das suas preocupações, mencionam regras como “apenas para adultos”, “não conduzir”, “resistir ao abuso” e “respeito pelos direitos dos outros”. Defende no seu livro que este “consumo responsável” é impossível. Porquê?

Fabio Bernabei: A NORML e algumas outras organizações bem organizadas passam a mensagem de que a canábis é uma droga relativamente inofensiva que podíamos legalizar. Mas, quando põem em relação esta droga psicadélica com a palavra “responsável”, estão a desafiar o princípio aristotélico da “não-contradição”. A canábis é uma substância psicadélica, que  altera a personalidade e as capacidades de julgamento do consumidor, por um curto período ou para toda a vida, mais e mais profundamente do que outras drogas, estimulantes ou sedativas. Há menos overdoses, mas danifica sempre a integridade do carácter da pessoa.

 

Dianova Portugal: Um dos reparos às suas “100 respostas” é um certo ponto de vista etnocêntrico acerca da biomedicina e do consumo da planta de canábis. Algumas pessoas argumentam que a canábis é uma das 50 ervas “fundamentais” da medicina tradicional chinesa. Como reage a estas críticas?

Fabio Bernabei: Nasci e vivo em Roma, uma cidade famosa na História por misturar todas as culturas e tradições de todo o mundo. Além disso, sou católico e rejeito qualquer atitude xenófoba ou racista, mas nem tudo dos tempos ancestrais é verdade.

Relacionar a marijuana médica com a Medicina Herbal Chinesa, ou outras tradições, é inapropriado. Porque os poucos documentos existentes e nunca verdadeiramente analisados reportam afinal o modo de fumo como um consumo médico [o mais comum na marijuana medicinal]. Mas, por cada possível, ou suposta, necessidade terapêutica solucionada por algum composto de canábis, a ciência médica contemporânea dispõe de muitos fármacos baratos, seguros e eficazes.

 

Dianova Portugal: Se publicasse uma segunda edição do “Cannabis Medica”, o que actualizaria ou mudaria no livro?

Fabio Bernabei:  Não aconteceram grandes mudanças ou uma actualização particular, mas gostaria de escrever algumas linhas sobre a minha experiência pessoal como um “alvo” dos “fundamentalistas” Pró-Canábis Médica. Penso que poderia ser útil para ficar bem claro nas nossas cabeças.

 

Nota: A entrevista integral a Fabio Bernabei vai ser publicada, em PDF, no Slideshare da Dianova Portugal em versão bilingue (Português e Inglês) até ao final desta semana.

Para já, as Partes 1 e 2 podem ser lidas aqui e aqui, respectivamente.

Entrevista a Fabio Bernabei [II]: Há “ainda um grande fosso entre ONGs e ‘think tanks’ especializados no tema das drogas e os mass media”

“Cannabis Medica”: 100 respostas de Fabio Bernabei a afirmações pró-uso medicinal da marijuana

Na segunda de três partes da entrevista à Dianova Portugal, o  também jornalista Fabio Bernabei lembra por que razão fundou o Osservatorio Droga, em Itália. Traz ainda à baila o “segredo” islandês, um caso “bem-sucedido” de prevenção do consumo excessivo de álcool e de marijuana, que quer ver replicado em toda a Europa. O entrevistado acredita que “o consumo de quaiquer drogas ilícitas é contrário à dignidade pessoal do ser humano”, estando empenhado em “parar as actividades da Máfia baseadas no dinheiro relacionado com a droga”. O objectivo é ambicioso: “um mundo livre de drogas”.

 

Dianova Portugal: O seu background profissional é o jornalismo de investigação. Como lhe parece que os órgãos de comunicação generalistas e especializados têm tratado o tema da droga? Faz sentido chamá-lo “jornalista-activista”?

Fabio Bernabei: Em Itália temos algumas Organizações Não Governamentais e “think tanks” [grupos de reflexão] especializados no “tema da droga”, com os seus órgãos internos, e o seu nível de conhecimento é muito profissional, mas temos ainda um grande fosso entre estes e os mass media.

Por isso, fundei o Osservatorio Droga, membro da World Federation Against Drugs [Federação Mundial Contra as Drogas], cuja missão relaciona-se com a arena mediática, fornecendo informações ao público em geral, para uma melhor e mais profunda compreensão do “tema da droga”, com o objectivo de alcançar um mundo livre de drogas.

De facto, nós acreditamos que o consumo de quaisquer drogas ilícitas é contrário à dignidade pessoal do ser humano, porque elas alteram, às vezes permanentemente, os processos cognitivos. A integridade destes processos cognitivos é parte do conceito de dignidade humana de ser uma pessoa livre e responsável.

 

Dianova Portugal: No livro argumenta que os cientistas não reconhecem a marijuana como um medicamento. O que devem as autoridades fazer com os fármacos legais, perigosos, actualmente disponíveis no mercado dos medicamentos?

Fabio Bernabei: Tem razão. Se também os produtos medicinais regulares reconhecidos como seguros para uso humano, depois de uma longa série de testes científicos, necessitam de uma vigilância pós-marketing para averiguar as reacções adversas suspeitas, imagine a canábis, nunca aprovada por nenhumas agências nacionais de fármacos. E, sim, temos que aumentar a monitorização contínua de qualquer tipo de medicamentos.

 

Dianova Portugal: “A canábis é de longe a droga ilícita mais cultivada, traficada e consumida do mundo”, afirma a Organização Mundial de Saúde. Como é que se pode combater o mercado negro e o crime organizado nesta matéria?

Fabio Bernabei: Como? Prevenção! Historicamente as organizações da Máfia começaram a envolver-se no tráfico de droga, depois da erupção da procura da droga criada propositadamente pelos activistas e pensadores da “beat generation”. Nós lutamos contra a procura, vamos parar as actividades da Máfia baseadas no dinheiro relacionado com a droga. Agora mais do que nunca.

A prevenção elementar mais bem-sucedida, baseada em provas, vem-nos da Islândia. Graças a uma tecnologia totalmente nova, [os islandeses] estancaram a ascensão do consumo excessivo de álcool e do fumo de marijuana, com o consumo de substâncias a descer constantemente nos últimos dez anos e agora próximo de 1% [vf. em www.icsra.net].

Qual foi o segredo? Quebrando o “isolamento” da comunidade científica das políticas sociais do Governo geridas com um foco especial na comunidade local. O projecto “Youth in Europe”, implementado pelo Icelandic Centre for Social Research and Analysis e coordenado pela ECAD [European Cities Against Drugs], está agora a promover em toda a Europa a experiência da Islândia.

 

Dianova Portugal: O livro “Cannabis Medica” está a ser traduzido noutros idiomas?

Fabio Bernabei: Para já, não. E é pena, porque é um assunto importante, que afecta todas as nações. Em inglês sugiro a leitura do “Cannabiz. The Explosive rise of medical marijuana industry” [“Canabiz. A ascensão explosiva da indústria da marijuana médica”].

O autor, John Geluardi, tem um ponto de vista oposto ao meu, mas o livro é excelente, pela quantidade e qualidade das informações sobre aquilo que se está a passar realmente agora nos Estados Unidos e que em breve se passará na Europa.

 

Amanhã, na terceira e última parte da entrevista… A lei Portuguesa de descriminalização pelos olhos de Bernabei | A “contradição” do consumo de drogas “responsável” | Medicina Herbal Chinesa vs Canábis Médica

Nota: Esta entrevista está dividida em três partes. Amanhã revelamos as perguntas e respostas finais. Uma versão em PDF da entrevista na íntegra será disponibilizada no Slideshare da Dianova Portugal também amanhã, quarta-feira. A Parte 1 pode ser lida aqui.

 

Entrevista a Fabio Bernabei [I]: “A canábis médica é uma questão de ideologia, não de compaixão”

Bernabei, jornalista de investigação e director da ONG Osservatorio Droga

 

Fabio Bernabei é representante nacional de Itália na ECAD – European Cities Against Drugs e director do OsservatorioDroga (Itália). Neste ano, publicou o livro Cannabis Medica. 100 domande e risposti, no qual que se opõe de forma veemente à legalização da marijuana para fins medicinais. A Dianova Portugal entrevistou o autor na sequência desta edição.

 

Dianova Portugal: No prefácio de “Cannabis medica”, diz-nos que decidiu escrever o livro devido a uma “experiência pessoal” [a sobrevivência a um cancro], num contexto de “reconhecimento da marijuana para fins medicinais”. O seu livro foi uma tentativa de desafiar e influenciar a opinião pública, afirmando que nem tudo é inevitável?

Fabio Bernabei: Não. Como sobrevivente a um cancro aprendi, entre outras, duas lições.

Primeiro, a pessoa doente é alguém vulnerável que tem que se respeitar e proteger, e não se deve tentar tirar quaisquer vantagens ideológicas da doença. Políticos e organizações que nos anos 1960 estavam a lutar por uma política proibicionista, agora tornaram-se adeptos de algumas terapias medicinais para doenças graves. Custa a acreditar. O Partido Radical Transnacional Radical, no seu manual “Os Radicais e as drogas”, assume a “estratégia medicinal” como uma das estratégias possíveis para alcançar a legalização das drogas. A estratégia menos radical, dizem eles, mas com um bónus:  sem pânico na opinião pública.

Segundo, as pessoas com cancro e outras doenças graves merecem o tratamento mais avançado, baseado na investigação médica mais inovadora, e não erva para fumar. Apenas um exemplo: em Itália o Sistema Regional de Saúde não tem dinheiro para oferecer uma radioterapia diária e generalizada nos hospitais e muitos, muitos, outros tratamentos básicos, mas alguns políticos preferem gastar centenas de milhares de euros do dinheiro dos impostos para oferecer charros de marijuana para fumar.

A canábis médica é uma questão de ideologia, não de compaixão.

 

DP: Considera que os italianos estão bem informados sobre o consumo da marijuana?

FB: Atente-se ao site da OEDT [Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, agência da União Europeia sedeada em lisboa]. Na página do “Perfil da Prevenção”, dedicada à Itália, as entradas relacionadas com a “Prevenção Universal” estão reportadas como uma longa lista de “Sem Informação”. É um bom retrato do nível de conhecimento dos italianos sobre marijuana e outras drogas ilícitas. A razão? Bem, quando se sabe o quão sérios são os políticos italianos, pode-se compreender melhor por que preferem usar o dinheiro público de muitas outras formas que não em políticas sociais efectivas.

 

DP: Como está a correr o debate sobre a canábis médica em Itália? Qual tem sido a reacção dos antiproibicionistas a este livro?

FB: Não há debate em Itália acerca da Marijuana Médica e as poucas informações disponíveis são apenas num sentido. Nos últimos dez anos foram publicados apenas dois livros italianos a contestar o uso médico da canábis: o meu, para um público geral, e outro para peritos, “Canábis e danos para a saúde”, escrito pelo professor Giovanni Serpelloni, director do Departamento Nacional de Política Anti-Drogas. Não são assim tantos para um assunto tão importante.

A reacção dos antiproibicionistas ao meu livro? Para muitos deles a canábis médica é uma espécie de tabu que ninguém ousaria desafiar. Portanto, eles reagiram às vezes de forma muito agressiva e indelicada. Outros, em contrapartida, escolhem fazer comentários irónicos acerca do tipo estúpido [eu] que não compreende que fumar marijuana vai salvar o mundo. Eu não me importo. Prefiro ouvir as vozes do Direito Internacional, as autoridades científicas oficiais e a minha consciência.

 

DP: Defende que, se a canábis médica fosse reconhecida legalmente e distribuída no Sistema Nacional de Saúde italiano, a produção, a venda e o consumo recreativo aumentariam. O que descobriu no âmbito das suas pesquisas acerca das causas e consequências da legalização?

FB: O Sistema Nacional de Saúde não pode disponibilizar qualquer substância sem a aprovação da AIFA (Agência Italiana de Medicamentos). Para evitar ensaios clínicos, o lobby pró Marijuana Médica inventou uma espécie de aprovação baseada num voto de uma maioria dos políticos locais na Assembleia Regional para diferentes doenças e terapias. Cada cabeça a sua sentença [Tot capita, tot sententiae].

Apenas para nomear uma, relativa ao aumento da criminalidade, no Canadá, o Supremo Tribunal do país reconheceu o aumento do mercado negro, a seguir ao reconhecimento político das propriedades “terapêuticas” da marijuana fumada. Os mesmos juízes que deliberaram em 2001 a favor de um “mercado regulado” de marijuana médica, argumentam agora que isto aconteceu devido à “burocracia” e à “qualidade” da marijuana médica do fornecedor monopolista do sistema de saúde canadiano. Sempre a mesma velha história.

Assim, depois de cerca de dez anos, o próprio Supremo Tribunal, a fim de combater o mercado negro, deu ordem ao Sistema de Saúde do Canadá para extinguir as limitações à plantação, à venda e ao consumo de marijuana médica. Aposto que o mercado negro vai explodir de novo, cada vez mais, como aconteceu sempre que as drogas ilícitas e perigosas foram promovidas como “miraculosas”.

 

Amanhã, na segunda parte da entrevista… O papel do Osservatorio Droga; Prevenção da toxicodependência e o projecto islandês; Drogas e direitos humanos; A máfia e o mercado negro; Jornalismo e activismo

Nota: Esta entrevista está dividida em três partes. Amanhã será publicada, aqui, a segunda parte. Quarta-feira, revelamos as perguntas e respostas finais. Uma versão em PDF da entrevista na íntegra será disponibilizada no Slideshare da Dianova Portugal a partir de Quarta-feira.