EUROPA APOIA “SALAS DE CHUTO” EM LISBOA

Expresso | 22-05-2014

Saúde. Observatório Europeu sublinha vantagens de sala de consumo assistido, que está pronta para avançar na Mouraria. Reúne consenso dos técnicos, mas não é pacífica na Câmara  
 
A criação de uma ‘sala de chuto’ em Lisboa, prestes a avançar na zona da Mouraria, promete dar polémica, mas o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT) — organismo da União Europeia que monitoriza a situação da droga na Europa — é inequívoco quanto às vantagens do projeto. Se a cidade quiser reduzir os riscos associados ao uso de droga e melhorar a saúde e a ordem públicas, acabando com o consumo a céu aberto, a criação deste espaço é a forma mais eficaz de o conseguir, garante ao Expresso Dagmar Hedrich, diretora do Departamento de Boas Práticas e Intervenções Sociais e de Saúde .
 
A localização já está escolhida e o projeto tem o aval das autoridades de saúde e do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), cujo parecer está agora a ser ultimado. Só falta mesmo a assinatura final do presidente da Câmara, António Costa.  
 
Apesar do consenso dos técnicos, o projeto não será pacífico na autarquia. António Proa, vereador do PSD, afirma que esta é uma questão “controversa e fraturante” no interior do partido, que ainda não tem uma posição formal sobre a matéria. “Não duvido que proteja a saúde dos toxicodependentes e a saúde e segurança públicas, ao reduzir o consumo a céu aberto, mas tenho uma oposição de princípio, já que um equipamento destes acaba, de alguma forma, por promover o consumo”, diz. 
 
A concretizar-se, a abertura na capital portuguesa de uma sala de consumo assistido está longe de ser um projeto de vanguarda. Em toda a Europa, há 86 espaços onde os toxicodependentes podem injetar-se com supervisão médica e em condições de higiene e segurança. E o primeiro já tem mais de um quarto de século: abriu na Suíça, em 1986. A experiência rapidamente saltou fronteiras, multiplicando-se em sete outros países — Holanda, Alemanha, Espanha, Luxemburgo, Noruega, Dinamarca e Grécia — sobretudo a partir de meados da década de 1990, quando o consumo de heroína atingiu o auge. Os estudos feitos ao longo dos anos demonstram o impacto positivo destes equipamentos e contrariam os principais receios dos opositores, nomeadamente quanto ao aumento do consumo e da insegurança, sublinha o Observatório Europeu.  
 
O diretor do SICAD, João Goulão, invoca igualmente os “bons resultados” conseguidos nas 58 cidades europeias onde existem salas de consumo assistido para defender a “bondade” de um projeto semelhante em Lisboa. “Estamos de acordo com a avaliação quanto à sua utilidade”, diz.  
 
Em Barcelona, por exemplo, os resultados são visíveis. “Praticamente deixámos de ver pessoas a injetar-se na rua. As overdoses baixaram muito, assim como as infeções por HIV. E mais toxicodependentes foram encaminhados para tratamento”, conta ao Expresso Dito Eningo, diretor de uma das sete salas de consumo assistido existentes na cidade e a primeira a abrir em Espanha, há já 21 anos.  
 
Como em todos os outros espaços existentes na Europa, os técnicos fornecem todo o material para o consumo da droga — sempre comprada fora —, mas só intervêm se houver sinal de overdose. De resto, fazem educação para a saúde e tentam encaminhar as pessoas para tratamento.  
 
A localização é essencial para o sucesso, corrobora Martin Luck, diretor de uma sala de consumo assistido em Zurique (Suíça). “A comunidade reage muitas vezes com desconfiança, pelo que é fundamental estabelecer um diálogo com a vizinhança e ter o cuidado de manter as imediações sempre limpas”, aconselha. Em Lisboa, a escolha do local parece não estar a levantar ondas entre os moradores, pelo menos para já. A Associação Renovar a Mouraria concorda com a criação do espaço, considerando que vai “melhorar significativamente a vida no bairro”, onde todos os dias muitos toxicodependentes se concentram para injetar heroína e fumar crack à vista de todos.  
 
Ainda que estejam previstas na lei desde 2001, as salas de consumo assistido nunca chegaram a avançar em Portugal. E não foi por falta de tentativas. Logo nesse ano, o então presidente da Câmara de Lisboa, João Soares, propôs a abertura de uma sala nas instalações de um antigo quartel em Campo de Ourique, mas o projeto foi fortemente contestado pelos moradores e comerciantes locais e não chegou a sair do papel. Em 2007, o tema voltou a estar na ordem do dia, quando o executivo, então liderado por Carmona Rodrigues, aprovou a criação de uma sala de injeção assistida. Na altura, a convocação de eleições antecipadas travou a concretização do projeto.  
 
Desta vez, a instalação está prevista para a Rua da Palma, junto ao Martim Moniz. Segundo a Câmara, a localização “cumpre todos os requisitos”: tem fácil acesso e fica próxima do Benformoso (Intendente), onde muitos toxicodependentes consomem a céu aberto, sendo ao mesmo tempo numa rua com poucos moradores, que não fica no coração do bairro. Segundo a lei, estes espaços não podem localizar-se em zonas muito residenciais e “não devem ser usados por mais de dez pessoas em simultâneo”. O ato de consumo “é da inteira responsabilidade” dos utentes. Todos têm de ser maiores de 18 anos e estar previamente registados, após a avaliação de um técnico de saúde que ateste a dependência.  
 
A diretora do Departamento de Boas Práticas e Intervenções Sociais e de Saúde do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (OEDT), sediado em Lisboa, garante que os espaços conhecidos como ‘salas de chuto’ não fazem aumentar o consumo nem o tráfico de estupefacientes, como receiam algumas pessoas. A responsável alemã apoia a criação de um espaço destes em Lisboa.  (Entrevista disponível na edição papel do Expresso)ImagemFonte (Foto): Expresso

Deixe um comentário

Ainda sem comentários.

Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s