Viagens ao Mundo da Destruição

Diário de Notícias | 16-02-2014 | Viagens ao Mundo da Destruição. As voltas que a heroína dá  
 
Dependência. O mundo da heroína funciona como um carrossel É uma viagem que volta, muitas vezes, ao ponto de partida. O ator norte-americano Philip Hoffman recaiu ao fim de 23 anos. Em Portugal, o fenómeno das recaídas está a aumentar. O DN revela histórias de quem voltou a uma realidade de destruição que julgava ter esquecido  
 
Começou a consumir aos 13… é um desafio à morte  
José, 35 anos, Em tratamento CRETA  
 
O fim de vida de José, nome que escolheu para esta história, bem podia ter sido igual ao do ator Philip Hoffman, recentemente encontrado morto no chão da sua casa de banho, com uma seringa no braço. José chegou a desejá-lo. Tinha vergonha de si. Não queria sentir nada.” Queria morrer. Rezava para que Deus me levasse. Lembro-me de estar a injetar-me, encher a seringa com a dose máxima e pedir para morrer, para que os meus filhos deixassem de sofrer.”  
 
Começou a consumir heroína ainda pré-adolescente, aos 13 anos. Primeiro o álcool, depois o haxixe, logo de seguida a heroína. Primeiro fumada e muito rapidamente injetada. “Estava num Renault 5 com alguns colegas mais velhos. Pediram-me o braço, amarraram-no e injetaram-me. Infelizmente, a sensação foi fantástica. Como se tivesse mil orgasmos juntos.” Oriundo de uma “família de classe média”, era fácil ter dinheiro para consumir. Deixou de estudar no 9.º ano.  
 
“Fui apanhado a injetar-me na casa de banho da escola. Expulsaram-me.” Os pais descobriram. Tentaram sucessivos programas de desintoxicação. “Começava no álcool e no haxixe e voltava à heroína.” José “vivia para consumir e consumia para viver”. O corpo e a cabeça só funcionavam se estivesse drogado: “Deitava-me pedrado e acordava com dores.” No Casal Ventoso, onde viveu, usava “as mistas”: heroína e cocaína. A ressaca era “um verdadeiro inferno: tinha dores horríveis, cólicas, arrepios.”  
 
Em 1998/99 entrou na clínica de tratamento CRETA. Correu bem. Até conseguiu concluir o 12.º ano. Aos poucos, conseguiu reconstruir a sua vida. “A situação financeira do País permitia a recuperação.” José manteve-se limpo durante 13 anos. “Ninguém esperava uma recaída.” Nem ele próprio. Trabalhava nas vendas, na área farmacêutica. Chegou a ganhar 12 mil euros por mês. “Vivia com muitos créditos, acima da média, com alguma megalomania.  
 
Ao mesmo tempo, afastei-me da psicoterapia, deixei de cuidar de mim.” Casou, foi pai duas vezes. “Pensava que só iria contar a história aos meus filhos se quisesse.” Eles souberam. E da pior forma. José perdeu o trabalho, a casa e foi obrigado a tirá-los do colégio. Afundado em créditos, não resistiu. “Lembro-me do dia em que recaí Andei na Mouraria e em Alfama à procura de traficantes. Nunca tinha comprado heroína em euros. Percorri vários quilómetros até encontrar quem me vendesse para injetar. Diziam-me que agora é tudo fumado”, recorda.  
 
Conseguiu, assim, adormecer os seus sentimentos. Voltou a sentir a dor de “uma doença incurável, progressiva e fatal”. Passava dias sem aparecer em casa. Trocou a mulher e os filhos pela heroína. A esposa conheceu um José “que era um bicho”. Quando há uma recaída” é pior ainda, sobretudo a nível da consciência”. É um peso difícil de suportar.” Tive amigos que se mataram para não voltarem a consumir.” José pediu novamente ajuda à CRETA, em 2012. “Estou a reerguer-me de novo, a tentar reconstruir os laços que destruí.” Vai uma vez por semana à clínica. Quer arranjar um trabalho. Diz que “a crise propicia as recaídas” e que as “pessoas que há 20 anos deixaram de usar heroína voltam quando veem a sua vida a desmoronar-se”.  
 
“Fiquei apenas com um colchão para dormir”  
Isabel Sorna, 37 anos, No Programa Terapêutico Lugar da Manhã  
 
Isabel Sorna tem 37 anos. Experimentou heroína aos 26. Até aí, tudo se proporcionou para ter uma vida digna. Esteve no exército e, quando saiu, arranjou trabalho. Casou e foi mãe três anos mais tarde. O marido consumia “drogas duras”. Perdeu a conta às vezes que lhe pediu que deixasse aquela vida. Ele não cedeu. Ela não resistiu.” Se é assim tão bom, dá-me que eu quero experimentar”, disse-lhe. Nunca mais parou. Gastavam pelo menos 50 euros por dia. Porque não havia mais. A casa ficou vazia. Venderam tudo o que tinham. “Fiquei apenas comum colchão para dormir.” Isso e uma dose eram o suficiente para sobreviver.  
 
Separou-se do marido e reencontrou o seu primeiro amor, “o dos 15 anos”. Engravidou. Consumiu metadona e heroína durante toda a gravidez. Afilha, agora com 10 anos, nasceu com 2,4 quilos. “Ficou nos cuidados intensivos durante 17 dias.” Nem isso a fez parar. Tentou vários tratamentos. “Saía e recaía no mesmo dia.”Esteve seis anos sem falar para a família. “Cheguei a roubá-los. Disseram-me que eu tinha morrido para eles. Fecharam-me as portas.”  
 
Isabel sempre firmou. Nunca injetou. Olha para o passado e dá graças por “nunca ter tido comportamentos de risco”, por não ter de lutar “contra hepatites ou VIH”, como tantas pessoas que conhece. Há 17 meses que se encontra em tratamento no Lugar da Manhã. Ou melhor, entrou em setembro de 2012. Saiu. Recaiu. Voltou há nove meses. Tenta agora “reconstruir os laços com a família”. Nunca tinha estado mais de um mês sem recair. “É uma vitória.” Na psicoterapia encontrou uma saída. “Não quero esta vida. Já chega. É tão bom acordar sem ressaca, sem dores no corpo…”  
 
A mãe, Maria Leonor, recorda o tempo em que a filha consumia: “Ela afastou-se da família e a família desligou-se dela.” Não havia outra saída. Viveram- se momentos “muito complicados”, que Maria tem dificuldade em falar. Em tribunal disputaram a guarda do filho mais velho de Isabel, agora com 15 anos, aos cuidados da avó. Todas as tentativas de a encaminhar para os tratamentos  
fracassaram. A mãe achou que a filha teria “de bater no fundo” para encontrar o seu caminho. “Chegou a pesar 40 quilos. Custou-me muito vê-la assim. Mas sei que fiz o melhor que consegui”, recorda.  
 
A determinada altura, Maria Leonor achou que Isabel ia morrer. “Comecei a preparar-me para isso.” Recorda ter visto a filha “caída no chão.” Lembra-se de estar deitada a pensar “onde é que ela estaria, se tinha frio, se estava bem”. Neste momento, sabe que Isabel “está protegida”. Isso conforta-a. Mas teme pelo amanhã. “Quando sair da clínica, terá de arranjar um emprego, uma casa, cuidar da filha [que ficou aos cuidados dos avós paternos]. Quando ela sair… é outra fase.”  
 
O vício que devora homens e mulheres destrói famílias. “Não perder a esperança” é essencial, diz o psicólogo Carlos Fugas, diretor clínico do Lugar da Manhã. O psicoterapeuta aconselha as famílias “a não desistirem deles, evitando soluções radicais que afastem o adicto dos seus vínculos familiares e acentuem o processo de marginalização, como pô-lo na rua ou cortar pontes de ligação”. Quem vive de perto o drama da maldita depara-se com um grande sentimento de impotência. “Devem encaminhá-los para estruturas de tratamento e encontrar mediadores que possam reaproximar a pessoa que recaiu da sua família.”  
 
Levada pelo amor, cedeu “à tentação”  
Ana Moreira, 54 anos, No Programa Terapêutico Lugar da Manhã  
 
Ana Moreira, 54 anos, dependente da heroína há 33. Está “limpa” há um. Primeiro veio a substituição. Entrou no Lugar da Manhã “viciada em metadona”, a tomar 125 miligramas por dia. Demorou seis meses a deixar. Conseguiu. E orgulha-se disso. “Tomo apenas um comprimido para dormir”, diz, ao DN. Para ela, “esta terapia [psicoterapia] faz todo o sentido e mais vale tarde do que nunca.” Tem uma história em tudo semelhante à de Isabel. Estudou e trabalhou até aos 22 anos.  
 
Problemas familiares, que prefere não recordar, fizeram-na sair de casa. Pediu, inclusive, um crédito para comprar uma casa. “Conheci o amor da minha vida.” E tudo se desmoronou. “Ele era toxicodependente, mas uma pessoa muito interessante. E eu cedi ã tentação.” Desde essa altura que Ana ficou dependente da heroína. Mais tarde, começou também a consumir cocaína. O consumo alternado das duas substâncias é bastante comum. O psiquiatra Rui Moreira explica porquê:”  
 
Como a heroína é depressora do sistema nervoso central, eles ficam a ‘bezerrar’ e muitas vezes alternam com a cocaína, que é um excitante. Uma deprime, a outra ativa.” Há, ainda, o speedball ou cocktail, uma preparação que junta as duas substâncias. Ana tem problemas em lidar com a rotina. “Incomoda-me. Estava a trabalhar numa loja, até gostava de lá estar, mas não tinha largado a metadona e com isso vieram outras coisas”, relembra.  
 
As últimas três décadas da sua vida foram vividas entre consumos, ressacas, programas de recuperação, recaídas.’ A família acreditou, por diversas vezes, e eu falhei sempre.” Espera que esta terapia funcione. O diretor clínico do Lugar da Manhã, Carlos Fugas, explica que o programa de tratamento que ali se faz “é baseado na psicoterapia, numa mudança interior e não exterior, como em muitos outros programas”. A população que por ali passa “quer conhecer-se melhor e viver de forma mais tolerante, sem stress e sem drogas”. Isto porque “a maior parte das recaídas dão-se por incapacidade de baixar os níveis de stress internos. A devoção às drogas aparece justamente para os diminuir”.  
 
“Trabalhava a consumir ou ressacava em casa”  
António, 43 anos, Na clínica de recuperação RAN  
 
António começou a beber aos 14 anos em festas de aniversário, depois aos fins de semana, até que passou a fazê-lo diariamente. Do álcool passou para os fármacos. Destes para o haxixe. E depois para a heroína. “Devia ter uns 18 ou 19 anos.” Tomou-se dependente. “Parei os consumos durante alguns tempos, tive períodos de abstinência, mas acabava sempre por consumir. O problema está lá.”  
 
Pouco tempo depois, a família encontrou-o em casa a consumir. Aí parou. Mas não por muito tempo. É natural de Lamego e em 1998 foi morar para Braga. “Fiz aquilo a que se chama ‘geográfica’, isto é, mudei de cidade. Também tentei internamentos em psiquiatria”, conta. Nada resultava. Arranjou trabalho como funcionário público, que ainda mantém. “Ou trabalhava a consumir ou ficava em casa a ressacar.” Dores físicas insuportáveis, “sintomas gripais, músculos presos – é muito doloroso”.  
 
A família achou que tinha deixado de consumir, tendo descoberto apenas em 2010 que a heroína continuava a consumir-lhe a vida. Nesse ano foi internado para o programa dos 12 passos, mas abandonou. A esposa viveu de perto todo o drama, assistiu à sua destruição. “E cansou-se. Estamos em processo de divórcio.” Aos 43 anos, António enfrenta um novo tratamento na clínica RAN, em Vila Real, onde já esteve entre junho e novembro do ano passado. “Recaí três dias depois de sair.” Os pais “questionam-se e cada vez têm menos confiança”, mas “têm apoiado sempre”.  
 
Estipulou uma dose para se matar. Faltou a coragem  
Maria, 50 anos, Associação Dianova – Comunidade Terapêutica Quinta das Lapas  
 
O primeiro tratamento de Maria, nome que escolheu para esta reportagem, foi feito em Espanha. Ao fim de dez anos de estabilidade emocional e laboral, houve uma reviravolta na sua vida. Esteve cinco anos na mesma empresa, mas foi dispensada “em troca de mão-de-obra indiferenciada e mais barata”. Viveu numa luta incansável por encontrar um emprego estável. Não conseguiu.  
Endividou-se para tentar a sua sorte na Suíça. Não correu bem. Regressou a Portugal com mais um problema: dívidas.  
 
Sentia-se “anulada, triste e desencantada com a vida”. Os sentimentos intensificaram-se e desejou “pôr fim à vida”. ‘Achei que com uma dose de heroína seria a melhor forma.” Regressou aos sítios que já tinha esquecido, reencontrou pessoas que já nada tinham que ver consigo. Estipulou a dose que queria para se matar. “Faltou-me a coragem para aquele ritual que eu já havia esquecido, de preparar um ‘chuto’ e aplicá-lo em mim própria.  
 
Decidi que perdida por cem perdida por mil. Comecei a fumar heroína diariamente até estar de novo dependente.” Maria tentava esquecer a dor profunda que sentia, apagar todos os sentimentos negativos que a assolavam, pensando que não interessava a ninguém. “Erro meu, erro crasso esse, de achar que não tinha valor e que a minha existência era indiferente à minha família.  
 
“A cada ‘não’ aproximava-me mais da recaída”  
Marco, 25 anos, Associação Dianova – Comunidade Terapêutica Quinta das Lapas  
 
Depois de muitos anos de dependência da heroína, dos quais não quer falar, Marco decidiu mudar de vida e integrar um programa terapêutico. Esteve internado 18 meses. Quando saiu, teve de enfrentar a dura realidade do desemprego. “O atual contexto laboral não contribuiu de forma alguma para ser bem-sucedido na fase em que me encontrava.” Arriscou mudar de cidade após assinar um contrato de nove meses em hotelaria. O vínculo acabou e foi dispensado.  
 
“Agarrado à minha vontade de me manter em recuperação, fui procurando investir em formação para me valorizar.” A motivação foi desaparecendo. Não arranjava emprego. Não tinha forma de se sustentar. Arriscou ir para a Suíça com a namorada, mas não conseguiram trabalho. Regressou. Voltou à casa dos pais e à cidade onde cresceu e onde começou a tratar por tu a heroína. E continuou a procurar emprego. “A cada ‘não’ que recebia aproximava-me mais da recaída.”  
 
Até que chegou um dia em que não aguentou e, na companhia de velhos amigos, voltou a usar heroína. À falta de trabalho, juntou-se a culpa e a revolta por ter voltado a consumir. Após vários meses, percebeu que não era aquilo que queria para ele, para a namorada e para a família. E voltou à Dianova. “Será que é desta que vou conseguir? Quero muito acreditar que sim…”  
 
 
Recaídas estão a aumentar nos últimos três anos  
 
Regresso Número de utentes readmitidos passou de 1631, em 2010, para 2487, em 2012. Muitos voltam a consumir depois de mais de uma década.  
 
O número de utentes readmitidos em instituições da rede pública por consumo de heroína tem vindo a aumentar. Em 2010, entraram no serviço 1631 consumidores de heroína. No ano seguinte o número de recaídas baixou para 1518, mas em2012 subiu para 2487, de acordo com o relatório anual do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD). Ainda não existem dados referentes ao ano de 2013, contudo, a manter-se a tendência, deverá assistir-se a um novo aumento. A crise é uma das explicações para o fenómeno.  
 
João Goulão, presidente do SICAD, considera difícil estabelecer uma relação causa-efeito entre a crise e o aumento do número de utentes readmitidos devido ao consumo de heroína. “Não é possível dizer que a maioria recaiu porque se viu com dificuldades acrescidas na vida. Contudo, um número significativo de testemunhos nos centros que apontam para problemas relacionados com a crise e o desemprego”, diz. As pessoas com problemas de dependência “transportam fragilidades em resistir às frustrações e à fragilidade”. O consumo de heroína está associado ” à alienação, ao alívio total do sofrimento”.  
 
O diretor clínico do programa terapêutico Lugar da Manhã, Carlos Fugas, admite que nos consumidores de heroína haja maior potencial para a recaída, mas considera que isso não está relacionado com as características da própria droga: “A heroína é uma droga que marginaliza, bem como o crack, em ascensão em Portugal. Está estigmatizada e é diabolizada. Quando as pessoas se isolam, o risco de recaída é maior.” O psicólogo indica algumas situações que potenciam esse stresse, consequentemente, a recaída: “Situações de desapontamento nas relações amorosas, perda de emprego, bulling profissional, morte de familiares, etc.”  
 
A responsável pela área de prevenção e tratamento da Comunidade Terapêutica Quinta das Lapas, Cristina Lopes, diz que “os últimos dois anos, especialmente 2013, nos trouxeram pessoas que já tinham uma vida organizada e estruturada, que estavam há muitos anos limpas”. A técnica fala de “pessoas que iniciaram os consumos na adolescência, fizeram tratamento, estiveram abstinentes durante muitos anos e agora enfrentam uma recaída”. Muitas das pessoas que bateram à porta do centro “viram-se numa situação de desemprego, com dívidas, e as situações de angústia e desorganização emocional potenciam as recaídas”.  
 
O risco de recaída” é uma realidade”, no entanto “quanto mais tempo passa, mais protegidas ficam”. O processo de tratamento da Comunidade da Quinta das Lapas “integra um processo de reintegração, de retoma do mercado de trabalho ou da vida académica”. O facto de há quatro anos existir “colocação laboral era uma proteção face à recaída”. Atualmente, há uma “dificuldade acrescida em inseri-los no mercado de trabalho”.  
 
O presidente do SICAD conta que hoje se assiste a um fenómeno curioso: ‘Alguns antigos consumidores vão ao serviço antes de recair, pedem ajuda antes de voltarem a consumir.” Nos anos 1980 houve o período da epidemia transversal a toda a sociedade, foi uma época marcada pela heroína. No início deste século, “a tendência foi de diminuição do número de novos consumidores”. Paralelamente ao aumento do número de recaídas, verifica-se uma diminuição no número de novos utentes: 784 em 2010,696 em 2011 e 430 em 2012. A heroína “é reconhecida como a droga geradora da desorganização e do sofrimento, conduz a degradação e dependência”, afirma João Goulão.  
 
 
4 PERGUNTAS A…  
 
“Em situações de ‘stress’, ficam em risco”  
 
RUI MOREIRA,  
Psiquiatra, diretor clinico da clinica de recuperação RAN e presidente da Sociedade Portuguesa de Alcoologia  
 
No caso concreto da heroína, há maior potencial para a recaída?  
Claro que sim. A heroína é um opiáceo muito alterador dos comportamentos. O consumidor fica muito desestruturado. Há uma desorganização interna. Os tratamentos são muitos demorados. Quanto tiramos o opiáceo, é necessário que o sujeito veja que existem muitos benefícios na abstinência. É uma droga que atuano sistema nervoso central, dá muito prazer, particularmente no início. Depois, há o consumo para baixar o desprazer.  
 
As situações de stress potenciam as recaídas?  
Grande parte das pessoas começam a consumir heroína muito jovens e ficam como que paradas no tempo, mais imaturas, mais impulsivas, mais dependentes. Em situações de stress, essas pessoas ficam em risco, porque têm menos ferramentas para lidar com as adversidades.  
 
É uma droga que deixa marcas para a vida?  
A heroína atua nos circuitos neuronais responsáveis pelo planeamento da vida. Os ditos consumidores pesados, mesmo após tratamento, têm dificuldades em planear e executar. Por exemplo, quando uma pessoa quer comprar um automóvel, planeia, vê recursos, eventuais empréstimos, faz contas e só depois executa. Um consumidor de heroína fica com dificuldades em planear e executar nos parâmetros normais, mesmo após tratamento. Daí que as pessoas tenham necessidade de apoio ao longo do tempo. As recaídas são uma bomba também na família, que fica destroçada. Da mesma maneira que os indivíduos sofrem, também os familiares devem ser alvo de ajuda e apoio. E os serviços de saúde têm descurado essa área do apoio às famílias.  
 
Como presidente da Sociedade Portuguesa de Alcoologia, considera que o aumento do número de recaídas é um fenómeno que também se verifica no álcool?  
O fenómeno do álcool é mais grave, porque é legal e o seu consumo é bastante fácil. É uma substância que está muito à mão para apaziguar, como se costuma dizer. Em situações de crise, ansiedade e stress, é um medicamento ao qual muitas pessoas recorrem. Se num momento ajuda, na continuidade conduz a um problema muito grave. Este é o problema mais grave do nosso país, não é a toxicodependência. E os nossos governos têm descurado a gravidade da questão do alcoolismo. Agora agrava-se. É uma substância lícita e em situações adversas, como a que se vive no País, há um aumento no consumo de álcool.

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