Segurança Alimentar | AESA nega ligação à indústria de Biotecnologia

A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (AESA) reiterou a sua independência relativamente à indústria de Biotecnologia. Esta posição acontece depois desta agência da União Europeia ser acusada pelos ambientalistas de ignorar provas de potenciais riscos para a saúde humana dos organismos geneticamente modificados (OGM). A directora da AESA disse ao portal Euroactiv que este organismo não tem que tomar partido na questão dos OGM. 

“Somos todos cobaias humanas?”. Assim se chama o documentário estreado no final de Setembro, em França, sobre os riscos para a saúde dos alimentos transgénicos. Este filme debruça-se sobre um estudo do biólogo francês Gilles-Eric Séralini, da Universidade de Caen, que durante dois anos alimentou ratos com uma das mais populares variedades de milho transgénico – o NK603, tolerante à aplicação do herbicida Roundup. O que aconteceu a estes animais? Sofreram de tumores mamários, bem como de danos graves nos rins e no fígado, de acordo com o estudo publicado no mês passado no jornal Food and Chemical Toxicology. 50% dos ratos masculinos e 70% das fêmeas sob estudo morreram prematuramente, comparado com apenas 30% e 20% no grupo de controlo, respectivamente.

As críticas ao estudo não tardaram em chegar, inclusive do campo da indústria biotecnológica. “A investigação de Gilles-Eric Séralini usou uma espécie de rato que tem alta probabilidade de desenvolver aquele tipo de tumores, na ordem dos 70%”, chamou a atenção Carel du Marchie Sarvaas, director do departamento de Biotecnologia Agrícola da Europabio.

Também a AESA questionou a “qualidade dos dados científicos”, considerando a análise contida no estudo de Séralini insuficiente, o que levou a agência da União Europeia para a Segurança Alimentar a pedir provas adicionais.

“Os dados que se utilizam devem respeitar um bom padrão científico. O debate tem sido às vezes um pouco emocional demais”, afirmou em Bruxelas, na sexta-feira, Catherine Geslain-Lanéelle, a directora executiva da AESA, que lembrou que a divulgação pelos investigadores da Universidade de Caen de imagens de ratos com tumores e de órgãos anormais pode ter inquinado a discussão.

O autor do estudo foi chamado, entretanto, ao Parlamento Europeu, no passado dia 19 de Setembro e já reagiu às críticas. “Fico sempre espantado como cidadão quando vejo que começam imediatamente a criticar o estudo. Embora seja uma primeira reacção normal, penso que deveriam tentar saber se há realmente algo grave, o que é que de facto se passa”, afirmou Séralini à Euronews.

 

AESA rejeita conflitos de interesses, mas não opina sobre OGM

A directora executiva da AESA, por seu lado, defende-se da acusação dos ambientalistas de dar mais ouvidos à indústria da biotecnologia do que a outras vozes da sociedade civil e do mundo científico: “Gostaria de dizer que não há provas disso. Nós temos regularmente reuniões com ONGs e com organizações como a Friends of Earth. Nós convidamo-los. Algumas organizações podem querer fazer passar essa impressão, mas não é verdadeira”, disse Geslain-Lanéele ao portal Euractiv.

Lanéele lembra a impossibilidade de alguém que trabalhou na indústria dos pesticidas poder candidatar-se a um emprego na AESA como exemplo das regras “muito restritas” desta agência no que toca ao recrutamento de peritos, conselheiros e assistentes, de modo a assegurar que não há qualquer conflito de interesses.

A AESA “não tem senão que proteger a saúde pública”, mas esquiva-se a tomar uma posição oficial sobre os transgénicos: “Não é nosso papel dizer se gostamos de OGM ou não”, defendeu a directora-executiva da AESA, que acrescenta que este organismo está “aberto” a reconsiderar uma avaliação dos estudos científicos prévios, através de novas provas científicas.

Apenas a produção de organismos geneticamente modificados MON 810 – uma variedade de cereal resistente ao ataque de insectos – está a aumentar actualmente na Europa, especialmente em Espanha. No mundo inteiro, 160 milhões de hectares de produção de OGM está a crescer, inclusive variedades de algodão, soja e milho.

À Euronews, Paola Testori Coggi, directora-geral de Saúde e do Consumo da Comissão Europeia (entidade que pediu à AESA para analisar o estudo de Séralini), garante que os OGM disponíveis no nosso mercado foram avaliados e são “seguros e saudáveis”. “Além disso, somos os únicos no mundo que informam os consumidores sobre a presença de OGM nos produtos que compram”, conclui.

1 Comentário

  1. De: Paulo Andrade andrade@ufpe.br Departamento de Genética/UFPE

    Caros.
    Não se trata aqui de defender o homem, mas defender (ou criticar) seu trabalho. É absolutamente irrelevante se o trabalho é de Séralini ou de outro cientista qualquer, o ponto é que o trabalho é muito ruim e tem o objetivo de alarmar o público, sem trazer qualquer contribuição científica à área de avaliação de riscos. Da mesma forma como os jornais sensacionalistas franceses saíram na frente alardeando os resultados do trabalho e dizendo que todos os demais pesquisadores foram ineptos ou vendidos à grande agro-indústria, agora a comunidade científica séria e as agências oficiais de avaliação de risco começam a reagir, dando sua opinião, não sobre o pesquisador, mas sobre o conteúdo de seu trabalho.
    Circular um abaixo assinado em defesa do Séralini é um subterfúgio e uma maneira engenhosa (mas comum) de desviar atenção do ponto fundamental, que é o texto cientificamente insustentável do autor. Sugerimos que os leitores consultem os comentários postados abaixo para maiores esclarecimentos sobre a falta de bases e os gravíssimos erros experimentais do trabalho publicado (ainda apenas online, esperamos sinceramente que a revista se retrate e retire o artigo da forma impressa), e que esqueçam a questão de ataque pessoal, que pode existir, mas não é o que move as críticas técnicas e científicas que agora circulam.
    http://genpeace.blogspot.com.br/2012/09/artigo-que-mostra-o-surgimento-de.html
    http://genpeace.blogspot.com.br/2012/09/artigo-sobre-efeito-de-milho.html
    http://genpeace.blogspot.com.br/2012/10/pesquisadores-brasileiros-assinam.html
    http://genpeace.blogspot.com.br/2012/10/the-largest-experiment-with-human.html


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