Entrevista: “Estavam à nossa espera mais de 100 crianças e adolescentes…”

Correio dos Açores (CA): Que razões levaram o Hospital do Divino Espírito Santo a criar uma Unidade de Psiquiatria de infância e da adolescência? Qual a sua missão? De que meios dispõe a unidade?

Bruno Seixas (BS): A Unidade de Pedopsiquiatria foi criada para colmatar uma lacuna regional a nível da prestação de cuidados de saúde mental. Até Maio de 2011 o atendimento médico especializado de crianças e adolescentes com problemas nesta área era feito por Pedopsiquiatras que se deslocavam periodicamente ao nosso hospital, situação que inevitavelmente resultava em atrasos e descontinuidade nos acompanhamentos, para além de impossibilitar o desejável, digo mesmo, imprescindível trabalho numa perspectiva multidisciplinar. Iniciamos a nossa actividade no Hospital com objectivos ambiciosos ao nível do desenvolvimento de intervenções preventivas, do diagnóstico e tratamento de perturbações psíquicas/doenças mentais em crianças e adolescentes (até aos 15 anos, numa primeira fase). Vimos encetando contactos com serviços e organismos públicos, no sentido de agilizar a referenciação a esta consulta e procuraremos sensibilizar/formar técnicos e apoiar intervenções descentralizadas, ao nível dos Cuidados de Saúde Primários.
A Unidade conta com um Médico Pedopsiquiatra residente e funciona em estreita colaboração com vários profissionais adstritos, até à data, a serviços como a Pediatria, Psiquiatria, Medicina Física e de Reabilitação e o Serviço Social.

CA: Que densidade de crianças e jovens têm procurado o Hospital e que, agora, são tratados nesta unidade? Quem procura mais uma unidade com estas características?

BS: À nossa chegada havia um grupo a que teríamos antes de mais que dar resposta: as mais de 100 crianças e adolescentes que tinham sido acompanhadas por outros médicos desta especialidade e que aguardavam novo agendamento de consulta. Arrumar a casa foi e vem sendo a nossa prioridade, ao mesmo tempo que procuramos dar resposta em tempo útil a novos pedidos e não descuramos situações de maior gravidade. Em Pedopsiquiatria, como motivos mais frequentes de consulta registamos um continuum que vai das Perturbações de Comportamento às Perturbações do Humor e aos Problemas Escolares de aprendizagem.

CA: Há já indícios nos Açores do abuso intencional por crianças e jovens de medicamentos e drogas de prescrição como analgésicos, tranquilizantes, estimulantes e sedativos com o objectivo de obterem um zumbido? Podem estar a acontecer situações destas sem que os pais se apercebam?…

BS: O consumo excessivo de fármacos, sobretudo em adolescentes, é um problema com que já nos deparámos e que uma vez identificado exige o diagnóstico de comorbilidades psiquiátricas, dos motivos que conduziram ao abuso/intoxicação e a caracterização de factores de risco que possam conduzir a um prognóstico desfavorável. Cabe aos pais um papel importante na prevenção destas situações, evitando/regulando o acesso de uma criança ou adolescente à medicação psiquiátrica (e não só) que eventualmente exista em casa.

CA: Há casos graves do abuso deste tipo de medicamentos? Há situações de abuso que podem levar à morte. Já ocorreu alguma situação tão extrema no Hospital do Divino Espírito Santo?

BS: As intoxicações voluntárias com medicação são situações graves, que podem colocar em risco a vida, mesmo quando não surgem associadas a ideação suicida. Nas situações de intoxicação aguda (e voluntária) registadas na Urgência Pediátrica do Hospital desde a nossa chegada iniciámos de forma célere processos terapêuticos em ambulatório, nesta especialidade e pelas Psicólogas com que colaboramos, até à data com bons resultados (leia-se sem novas situações de intoxicação).

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O estado mexicano onde divulgar informações falsas no Facebook da prisão

Maria de Jesus Bravo Pagola, 34 anos, e Gilberto Martínez Vera, de 48, foram detidos no dia 26 de Agosto, após terem alegadamente partilhado no Twitter e no Facebook informações sobre gangues de droga, responsáveis por levar a cabo sequestros e tiroteios nas escolas da cidade mexicana de Veracruz. Nas mensagens, Bravo informava que cinco crianças tinha sido raptadas, que havia ameaças de bomba e que vários homens dentro de um helicóptero tinham disparado contra uma escola primária. “Mantenham-se calmos. Pensem que as crianças devem estar em suas casas. Vão lá buscá-las”, alertou a antiga funcionária pública. Nada do que foi descrito aconteceu, mas as informações lançaram o pânico nas ruas da cidade.

Perante a confusão instalada, o governador de Veracruz, Javier Duarte, acusou a dupla de “terrorismo”, o que em termos legais significa uma pena até 30 anos de prisão. Mas, pressionado pela opinião pública e por grupos defensores dos direitos humanos, Duarte propôs a introdução de uma lei menos dura no código penal do Estado, que foi aprovada na terça-feira. Os mais críticos em relação à resposta do governo dizem que a medida poderá sufocar a liberdade nas redes sociais, muito usadas no México para partilhar informações sobre violência, numa altura em que as pessoas não confiam no que é avançado pelo governo ou pelos meios de comunicação social.

Na quarta-feira, quase um mês depois, as autoridades mexicanas retiraram as queixas contra os dois mexicanos acusados de terrorismo e sabotagem. “Graças a Deus”, gritou Maria assim que lhe comunicaram a ordem de libertação. “Quantas mortes é que a minha acção produziu? Não há crime. Não magoei ninguém. Aquilo que tentei fazer foi travar a violência”, afirmou à CNN.

Se, por um lado, a sua detenção provou, pelo nível de contestação, a união dos utilizadores das redes sociais em defesa da liberdade de expressão, por outro foi um bom exemplo de como a divulgação de informações incorrectas pode acabar mal. E é neste dilema que se encontram as autoridades mexicanas. Com a elevada criminalidade no México, muitos jornalistas já foram perseguidos e mortos, alguns decapitados, e muitos órgãos de comunicação deixaram de publicar notícias sobre homicídios e desordens nas zonas de conflito.

As redes sociais acabam por preencher este vácuo. “Está a tornar-se um padrão em muitas cidades onde existe violência generalizada”, explicou Carlos Lauria, coordenador para as Américas da Comissão de Protecção de Jornalistas, ao “Washington Post”. “Os gangues criminosos exercem controlo sobre a imprensa. Os media param. E na ausência de notícias os cidadãos comuns viram-se para o Twitter e para o Facebook para preencher esse vazio”, acrescentou. Continuar a ler