Miúdos bêbados a partir dos 12 anos

A pista é dela. Passeia-se de microvestido preto e ténis castanhos da Merrell, enquanto os miúdos, entre os 12 e os 16 anos, com as línguas pretas de vodka e cigarros no nariz, lhe tiram as medidas. Beija um deles, sem conversas, porque a música electrónica está no volume máximo. Segue para a casa de banho e exclama: “Este vestido deixa-me doida!”. A seguir, pergunta: “Estou bem, não estou?” Sai e volta rapidamente para um compartimento da mesma casa de banho – desta vez acompanhada por um jovem.

É evidente que esta miúda loira, de 15 anos, está bêbeda. Os efeitos dos dois shots Dragon Ball (uma mistura de absinto e Gold Strike), vendidos a 1,50 euros num bar de Santos, e das 15 vodkas com limão e maracujá, consumidas numa discoteca também em Santos – que tem bar aberto por 10 euros -, fazem-na sentir-se confiante. “Vim aqui para fazer ciúmes ao meu ex-namorado. Só consigo vir a Santos bêbeda, assim é mais divertido.” O “ex” assiste a tudo, irado. A entrada é indiscriminada, não há limites de idade. O sítio é conhecido pela “discoteca dos miúdos”. À porta, a clientela recebe um copo de plástico e um traço de caneta de feltro verde no pulso direito para sair e voltar quando quiser.

São miúdos, mas bebem mais que muitos adultos noctívagos. Seguem apenas dois critérios: fácil acesso e baixo preço. Desta forma, fazem disparar as estatísticas de consumo, como comprova o mais recente estudo, divulgado em Março pelo Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT): há cada vez mais miúdos até aos 16 anos a beber muito e regularmente. Para o psiquiatra Daniel Sampaio, os pais não têm feito o suficiente. Saídas à noite só devem ser autorizadas a partir dos 16 anos. “Mais tarde os filhos agradecem a autoridade.”

A fase mais crítica é entre os 13 e os 14 anos (8.° ano), com 22,5% a assumir que beberam no último mês, segundo um inquérito nacional a 5.000 jovens, realizado em 2010 pela Faculdade de Motricidade Humana. De acordo com o mesmo relatório, a bebida mais popular é a cerveja: 7,8% dos inquiridos dizem que a consomem todas as semanas e, entre os alunos do 8.° ano, 18,5% admitem ter ficado bêbedos entre uma a três vezes. Os padrões de consumo mudaram: além do fenómeno bing drinking (beber muito num curto espaço de tempo), a taxa de consumo tem aumentado mais no sexo feminino, aponta a psiquiatra Teresa Sá Nogueira.

A porta da discoteca de Santos serve de prova. Saem a cambalear às 4h da manhã. A amiga da miúda loira de 15 anos tropeça num degrau da entrada, sob o efeito de vodka. Cai de queixo, o vestido preto sobe e vêem-se as cuecas. Os miúdos, cerca de duas centenas, à conversa no jardim, aplaudem. “Ouvi as palmas e saí o mais depressa que pude”, conta a jovem à SÁBADO, já sóbria.

A miúda loira, que é estudante do liceu Camões e residente num bairro do centro de Lisboa, também faz um balanço negativo daquela noite de férias, de 8 para 9 de Julho passado. “O meu ‘ex’ fez-me passar a maior vergonha da minha vida.” Levado pelos ciúmes, em plena pista deu um soco ao amigo dela e foi expulso pelo segurança. Fizeram o ajuste de contas lá fora, mas o ex-namorado, de 15 anos, a estudar no colégio Moderno e um dos maiores consumidores de álcool do grupo de amigos, saiu derrotado com ferimentos ligeiros na cabeça. O outro atirou-o contra o vidro espelhado da discoteca, que ficou em estilhaços.

Perante a confusão, habitual em Santos às sextas à noite (a preferida dos adolescentes), a polícia foi chamada a falar com os intervenientes da luta. Algo que começa a ser regular: desde há três meses que registam mais ocorrências deste tipo. “São recorrentes depois de os miúdos, entre os 14 e os 15 anos, estarem embriagados. Devia haver um reforço de policiamento naquela área”, diz uma fonte policial.

Santos não é só diversão para adolescentes. É também uma arena, onde eles fazem demonstrações de força para as impressionar, ou prolongam guerras entre colégios e liceus bem cotados de Lisboa. A testosterona dispara após as 2h da manhã. “Um amigo meu foi agredido por três rapazes no Largo de Santos, numa sexta-feira de Páscoa”, conta um miúdo de 14 anos, que já vomitou oito vezes devido à embriaguez. Começou a beber aos 12 anos, em casa, com amigos que assaltaram o bar da casa de um tio, num aldeamento perto de Aveiro. Dali para os bares de Santos foi uma questão de semanas. Apesar de ser menor, e de sair quase todas as semanas com o dinheiro que a mãe lhe dá para as refeições, nunca lhe pedem identificação.

A animação começa por volta da meia-noite. Bebem-se “litradas” de cerveja. As garrafas de litro custam 1 euro numa mercearia aberta até às 2h da manhã. Só este ano, o estabelecimento foi fiscalizado duas vezes pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE). “Foi instaurado um processo-crime por suspeita de falsificação de bebidas e determinada uma suspensão de actividade por falta de higiene”, diz a ASAE.

Mas a procura na mercearia continua a aumentar, com os bares a queixarem-se de perda de clientela para as “litradas”. Há vestígios nas bermas das ruas, paragens de autocarro (numa delas está um rapaz deitado, de olhos esbugalhados) e num chafariz. Muitas estão partidas. “São atiradas às cabeças uns dos outros”, conta um adolescente.

Pelo meio, há quem vomite e seja levado em braços, para desespero dos taxistas que os transportam até casa. Há pouco tempo, um deles teve de expulsar três adolescentes, pelas 0h30, porque um parou no Largo do Rato e no Marquês de Pombal para vomitar. “E já vi um miúdo vomitar sobre um colega meu. Parecia uma cascata.” O fenómeno das “litradas” tem vindo a aumentar desde 2010 nas cidades fronteiriças. Bebe-se em praças ou cafés. “A miudagem que não quer ser incomodada com pedidos de identificação faz isto, sobretudo por uma questão económica – a cerveja é mais barata”, explica Fernando Mendes, da delegação portuguesa do European Institute of Studies on Prevention.

O vício de um miúdo de 1,65 metros e 80 quilos, que se orgulha de pertencer à nobreza e vestir marcas, eram as cervejas. Aos 14 anos já bebia três ou quatro todas as tardes, num café junto ao liceu do Restelo. Depois passava a dois copos de vinho tinto ou sangria. Aos 15 anos tornou-se alcoólico. Todos os dias roubava cinco a seis cervejas e uma garrafa de tinto numa mercearia próxima do liceu.

Numa das inúmeras vezes que não foi às aulas – até chumbar por faltas -, passou pelo café do Restelo para beber sangria com seis amigos. Começou às 16h e só parou quando ficou descontrolado. Começou por atirar garrafas de vidro que encontrava na rua para uma casa de freiras. Não satisfeito, saltou por cima do capô de três carros. A seguir subiu para o tractor de uma obra e tentou pô-lo a trabalhar. Entretanto, os homens da obra chamaram a polícia, que revistou os amigos no café. Ele aproximou-se dos dois agentes e em tom insolente pediu para ser revistado. Insultou um polícia, que o algemou e levou para a esquadra de Miraflores.

Perto das 20h, o padrasto foi informado do seu paradeiro. Após um duche frio na esquadra, foi levado para casa. Nessa altura, gastava cerca de 200 euros mensais só em bebida. Um mês depois do episódio da esquadra, a família convenceu-o a iniciar tratamento de recuperação no centro Villa Ramadas, em Alcobaça, que só terminou a 15 de Janeiro passado. Nunca mais tocou em álcool.

Outro adolescente, de 15 anos, também está em abstinência no centro terapêutico Crescer em Loures, há 10 meses, mas por ordem do Tribunal de Menores, que o julgou por roubo de um computador e lhe deu pena suspensa. Tudo por causa do álcool, que consome desde os 10 anos com amigos. Manteve-se fiel ao whisky. “A bebida dos bandidos”, diz a rir. Para o obter, assaltava supermercados em Lagoa, no Algarve, próximo da zona onde vive, e colocava as garrafas na mochila. A bebida soltava-o. Era descontraído, mas também violento. Especializou-se em roubos por esticão ou com navalhas e passava na escola para jogar à sueca e ouvir rap no “tijolo”, sem medo de ser castigado.

Ele conhece a história da família: o pai era alcoólico. Nestes casos, a propensão para ficar dependente da bebida aumenta 50%, alerta o psiquiatra José Neves Cardoso, expresidente da Sociedade Portuguesa de Alcoologia. As bebidas actuam como bolsas de loucura temporaria , segundo o especialista. Afectam a aprendizagem e a memória, além do juízo crítico e da capacidade de decisão.

Por isso, os miúdos fazem tantas parvoíces, como escrever SMSs absurdos. “Dizem que és muita boa, mas acho que tens de ir à bomba do Zé”, escreveu um miúdo de 15 anos, e enviou a mensagem a uma amiga, numa madrugada de meados de Julho passado. Foi a sua primeira bebedeira de férias no Algarve. Numa noite, em Vilamoura, foi para um bar junto à marina, onde se concentram adolescentes de todo o País. Bebeu uma cerveja de 75 cl, um copo de sangria e dois de cerveja. Ele e os dois amigos acham que a noite de Vilamoura é “mais fixe” que a de Albufeira. “Porque tem produto nacional”, dizem, referindo-se às miúdas.

Parece um a festa de gala do liceu. As raparigas mais novas denunciam-se pelo excesso de maquilhagem, decotes, saias curtas e saltos, mas as feições não enganam. Os rapazes observam-nas em mesas corridas de madeira, ou em filas quilométricas para comprarem jarros de dois litros de sangria (9 euros), baldes de cerveja de 75 d (3 euros) e 50 cl (2 euros) ou copos de cerveja (1 euro).

A noite prossegue numa discoteca ao ar livre, inaugurada este ano, ou noutra mais antiga junto aos aldeamentos. À porta desta já houve desacatos no Verão de 2010. “O meu irmão levou porrada só porque recusou dar uma mortalha a um miúdo de 13 anos. Ele chamou um amigo de uma da que de futebol e o outro bateulhe. Ficou com hematomas nas orelhas e todo dorido no nariz”, conta uma miúda, de 15 anos. Diz que não se revê nas “pitas” de 13 anos que andam aos “Ss” e a engatar rapazes de 17 e 18. Eles pagam-lhes bebidas e levam-nas para a praia da Marina, pelas 6h da manhã, para terem sexo.

As menos resistentes à bebida vomitam, espumam da boca e só não vão para o hospital porque são assistidas por amigas. Mesmo nas zonas mais tranquilas do Algarve também há episódios de coma alcoólico. Um rapaz de 14 anos testemunhou um deles em Agosto de 2010, num bar da freguesia de Altura, junto a Castro Marim. O amigo, de 13 anos, bebeu 10 cervejas, quatro vodkas e no fim levou um bónus do barman, que lhe ofereceu o resto da garrafa de vodka. Aí começou a revirar os olhos, tremeu, vomitou e caiu. Às 3h, o grupo, que não conseguiu reanimá-lo, com estalos, decidiu telefonar aos pais, que o levaram para o hospital.

No Porto o cenário é idêntico. Os mais descontrolados são “queques” de camisa branca que frequentam os bares da Foz, das Galerias de Paris, dos Leões e de Matosinhos. “Temos muito medo dessa malta. São crianças perdidas de bêbedas”, queixa-se um taxista de 52 anos. Um deles, de 15 anos, bateu com os sapatos no tejadilho do carro em andamento. “Olhó gimba (velho), estás armado em quê?”, disse o rapaz. O motorista expulsou-o. Numa outra situação, tentou acordar a passageira de 14 anos, com vestígios de vómito e desarranjada. Como ela reagiu com gritos, foi obrigado a pegar no seu telemóvel e alertar a mãe. Com tantas cenas, o taxista não se espanta com a agitação aporta das urgências dos hospitais da cidade. “Entram todos vomitados.”

A pedopsiquiatra Alda Coelho, do hospital de São João no Porto, confirma o aumento do número de casos de intoxicação alcoólica nas urgências de pediatria. As épocas críticas são a Queima das Fitas, passagem de ano, festas de São João e festivais, devido ao efeito de grupo. Em Coimbra, o hospital pediátrico registou 12 internamentos por consumo excessivo de álcool, de jovens até aos 17 anos, entre Fevereiro passado e Agosto. Dois dos casos, abaixo dos 15 anos, foram do sexo feminino.

Do que poucos falam é dos maiores perigos. Segundo a psiquiatra Teresa Sá Nogueira, “o alcoolismo está associado à maioria das causas de morte na adolescência: traumatismos, suicídios e homicídios”. O colega José Neves Cardoso acrescenta o exemplo que mais o impressionou: há seis meses, um miúdo de 15 anos decidiu beber “litradas” numa salda de sábado. Empoleirou-se num carro do lixo, mas teve azar – caiu para trás e fracturou a coluna. Ficou paraplégico.

Fonte: Sábado

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