Saúde pública é mais barata que a saúde privada

A leitura do último artigo de Paul Krugman (The New York Times de 12 de Junho) sobre o exemplo norte-americano é esclarecedora quanto ao facto de o Medicare permitir aos EUA economizar dinheiro. O Medicare é o programa federal norte americano que paga certas despesas de saúde para pessoas com 65 anos ou mais. Existem alguns co-pagamentos mas a maior parte da despesa com a saúde dos americanos com mais de 65 anos é paga por esse programa estatal. Apesar de não ser tão abrangente quanto alguns seguros privados, o Medicare é uma importante fonte de cuidados de saúde para os reformados. Recentemente o senador americano Joseph Lieberman propôs que se passasse o início da cobertura do Medicare dos 65 para os 67 anos. No entanto, o Nobel da economia, Paul Krugman é peremptório na sua afirmação de que a cobertura do Medicare devia ser alargada e não reduzida porque a saúde pública é menos dispendiosa para o país do que quando se aumenta o recurso a prestadores do sector privado. «De vez em quando um político aparece com uma ideia tão má, tão disparatada, que quase ficamos satisfeitos. É que as ideias disparatadas podem ajudar a ilustrar a que ponto o discurso político descarrilou», afirmou sem hesitações Krugman.

Mais do que salvar o Medicare, Krugman considera que o importante é garantir que os «americanos recebem os cuidados de saúde de que necessitam a um custo que o país consiga suportar». Até porque, como afirma:«o Medicare na realidade poupa dinheiro – muito dinheiro – em comparação com quaisquer programas de seguradoras privadas». Reduzir a cobertura do Medicare significaria muito provavelmente, segundo o economista, aumentar significativamente os custos com saúde além de retirar a muitos americanos os cuidados médicos de que necessitam. Os números não mentem: entre 1969 e 2009 os custos do Medicare aumentaram 400% já os prémios dos seguros de saúde aumentaram nesse mesmo período mais de 700%. Sendo portanto verdade que «o Medicare não se tem mostrado capaz de controlar custos, o sector privado teve um desempenho muito pior». Se se reduzisse a cobertura do Medicare para os 67 anos, isso significaria várias coisas: as pessoas com 65, 66 anos, caso tivessem possibilidades acabariam por adquirir um seguro privado muito mais caro do que custaria a mesma cobertura através do Medicare. Para as pessoas que não tivessem essa possibilidade, ou para aquelas que as seguradoras não aceitassem, assistir-se-ia ao adiamento por dois anos de alguns tratamentos fundamentais para a manutenção da qualidade de vida (facto comprovado num estudo dos economistas da saúde, Austin Frakt e aaron Carrol, o qual refere que esse fenómeno já sucede com os americanos com 60 a 65 anos que não têm seguro de saúde, sendo a consequência desse adiamento que esses cidadãos tornam-se doentes muito mais dispendiosos quando atingem a idade que lhes permite ter a cobertura do Medicare). «Se realmente quisermos reduzir os custos com os cuidados de saúde devíamos criar programas do tipo do Medicare para o maior número possível de americanos».

Fonte: Revista da Ordem dos Médicos

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