Experiência de um ex-toxicodependente na primeira pessoa

Passava pouco mais das 19 horas quando cheguei à casa de Miguel (nome fictício). Toquei à campainha e vi o jovem que tinha falado comigo dias antes ao telefone. Concordou darme uma entrevista sobre a sua experiência no mundo viciante das drogas. A entrevista transformou-se numa conversa que se soltou debaixo de uma nuvem de fumo de cigarro. Esteve dependente de drogas pesadas, mas tudo começou num charro. Foi com um grupo de amigos que Miguel teve o primeiro contacto com drogas. Com 13 anos começou a consumir haxixe. Inicialmente, fumava às sextas-feiras, mas com o passar do tempo chegou “à fase em que era cool e fumava diariamente”.

Miguel tinha à noção de que o que fazia não era bom. Fazia-o às escondidas, não era moda. “Fumava aquilo por brincadeira, porque achava algo normal”. Tão normal que passou a rotina. Miguel pensava que nunca iria consumir outro tipo de drogas e chegou a ser alertado por amigos que podia entrar noutros mundos. “Mas nós não queríamos saber, era normal o que fazíamos, não havia que estar preocupado”. Do haxixe passou ao consumo esporádico de extasy e esta nova droga “levou-me para perto de outro tipo de consumidores, pessoas que cheiravam cocaína, que fumavam cocaína”. As pessoas que conhecera estavam ligadas ao mundo da noite. Miguel enquanto Dj ficou cada vez mais perto destes novos consumidores. O discurso parou. Acendeu um cigarro. Ao segundo bafo confessa que foi numa passagem de ano que tudo passou para outro patamar. “Pensei que se cheirasse uma vez nunca me ia acontecer nada de mais, e cheirei. Fiquei tão exaltado, entusiasmado, drogado, que me convidaram para fumar cocaína, crack. Nesse dia fumei cocaína e heroína”. Aquilo que Miguel pensara nunca poder acontecer, aconteceu. Experimentou duas das drogas mais viciantes que existem, a cocaína e heroína.

O cigarro libertou-o. Fala-me sobre a sua experiência com cocaína. Começa-se por consumir em ocasiões especiais: passagens de ano ou aniversários. No entanto, este consumo sofre o mesmo processo que o consumo de haxixe. Era uma vez por semana, passaram a ser duas e de duas a todos os dias. É tudo muito rápido. “Eu estudava fora e isso permitia-me ter uma liberdade muito grande… quando fumava, nunca pensava nos efeitos daquilo, até porque os meus amigos que fumavam estavam bem, e sempre pensei que conseguia sair quando quisesse. Sempre pensei que tinha o controlo da situação”. Miguel tornara-se dependente. As facilidades financeiras nunca permitiram a Miguel sentir os efeitos secundários, estava sistematicamente sob o efeito da droga. Para ele o normal era estar drogado. Os rituais sociais desapareciam, “chegava à noite de sexta-feira não pensava onde ia ter com os amigos, mas sim onde ia comprar a droga”. Foi nessa altura que teve a noção que era dependente. Acordava de manhã e a primeira coisa em que pensava era consumir para voltar ao estado, que para ele, era o normal.

A sociedade deturpava-se, Miguel tinha criado uma sociedade particular. “Naquela altura eu parava com poucas pessoas que não consumiam e isso é que era normal, o resto da sociedade passava-me ao lado”. Após perder a namorada por causa do vício, Miguel apercebeu-se que bateu no fundo, tinha perdido a noção da realidade e chegava a consumir 80 a 100 euros de cocaína e heroína por dia. Tentou sair uma, duas, três vezes, mas nunca conseguiu. A vontade de consumir era maior. As tentativas de sair resultavam em consumos maiores. Miguel começou a ver-se como uma pessoa diferente, perdeu a confiança da família. Bastava um novo passo em falso para ser expulso de casa. Foi ele que contou à família que era dependente. Foram os familiares que o ajudaram a frequentar o Hospital Conde Ferreira. “Tinha chegado ao fim da linha. Era agora ou nunca, tinha que ser”.

Durante 7 dias Miguel esteve em tratamento e limpou o organismo. Mas o seu principal obstáculo era psicológico. A sua vontade era consumir, mesmo que não estivesse a sentir a ressaca. Frequentou então uma clínica de psicologia durante 2 meses, onde aos poucos foi perdendo a vontade de consumir. Ganhou novos horizontes na sua vida. Hoje, Miguel reconhece: “se não tivesse a família que tenho, sei que nesta altura estaria morto ou preso”. E consumiu mais alguma vez? Admite que sim. Ainda passou 2 meses a consumir esporadicamente, mas, depois, ponto final. “Ganhei consciência, nunca mais consumi desde então; estou completamente limpo”. Miguel acende outro cigarro, conversamos mais um pouco, a pessoa que eu tinha à minha frente não era mais a que descrevera atrás. Ele está diferente. Toda a experiência que passou não teve só momentos negativos. Serviu para ver a verdadeira amizade. Os amigos foram presença assídua no seu discurso. Foram extremamente importantes para Miguel. E na hora de agradecer, não os esquece. O gosto pelas coisas voltou. Voltou a estudar. Voltou a viver. “Ganhei a confiança da família e o amor que tinha perdido por parte deles, sinto-me outra pessoa”. As cores voltaram a pintar-lhe a vida.

Fonte: JN

2 comentários

  1. vivo com um ex toxicodependente e e um pouco dificil ao principio foi mais so discutiamos ate nos entendermos mais um pouco a vantagem e que o conheoço ha 15 anos sempre foi meu grande amigo eu chamo me sandra nunca passei pela droga pesada e problemas com o alcool tambem nao
    nao estraguem as vossas vidas nao vale a pena por nada e so uma passagem
    bjs

  2. muito dificil,tou a tomar conta do meu mano pa tomar a medicacao ele mente,consome as escondidas nao sei como o ajudar


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