Disseram-lhes que mentiam. Mas o tribunal deu-lhes ontem razão

Alguns ex-alunos da Casa Pia que assistiram ao julgamento preferiram a discrição. Outros deram a cara e dizem que nunca mais serão chamados de mentirosos.

Ouvir relatos explícitos de abusos sexuais com menores não é confortável para ninguém. Mas para as vítimas da Casa Pia a recordação daquelas cenas, ontem, trouxe-lhes mais alívio do que tormento. Vinda da voz dos juízes, a descrição tinha um significado especial: no entender do tribunal, muito do que fora dito nos longos anos do julgamento era, afinal, verdade.

Psicologicamente, foi um passo valioso. “A declaração formal é uma coisa importante. Há um processo de reparação”, disse o psiquiatra das vítimas, Álvaro Carvalho, no princípio da tarde, quando se tinha dado como provados muitos dos relatos de abusos sexuais.

Cinco ex-alunos estiveram presentes ontem na leitura da sentença. Sentaram-se numa fila atrás dos seus advogados, à esquerda de quem olha para o colectivo de juízes. Não queriam falar com a imprensa. Familiares também procuraram a discrição.

Um certo conforto

Apenas uma das vítimas, BernardoTeixeira, circulava à vontade. Depois da leitura dos factos provados, ainda no final da manhã, estava satisfeito. “Causa um certo conforto, depois de tantos anos a chamarem-nos mentirosos”, declarou. Ainda assim, a presença em tribunal não era indolor. “É complicado olhar para os arguidos e para os advogados quando estão a olhar para nós”, disse.

É num hall com cerca de 50 metros quadrados, entre a sala principal de audiências e outra, menor, transformada em centro de imprensa, que Bernardo Teixeira conversa com a comunicação social. O espaço funciona como uma espécie de interface, onde jornalistas abordam quem entra ou sai da sala onde está a ser lida a sentença. Aí vê-se Ricardo Sá Fernandes, advogado de defesa, a trocar breves palavras com Miguel Matias, advogado de acusação. Ou Carlos Cruz a andar pelo hall vazio, depois da debandada para o almoço, de que prescindira em favor de uma sandes. Nas horas de maior movimento, há dois ou três advogados a darem entrevistas ao mesmo tempo.

Quando a leitura da sentença recomeça, após o almoço, pressente-se que não demorará a chegar ao fim. Em relativamente pouco tempo, a juíza Ana Peres apresenta fundamentos, tipifica os crimes e dita penas de prisão a seis dos sete arguidos. A improvisada sala de imprensa irrompe em frenesim jornalístico.

A leitura não chegara formalmente ao fim e algumas pessoas começam já a deixar a sala de audiências. Fernando Nogueira, 80 anos, é uma delas. Não tem qualquer relação nem com as vítimas, nem com os acusados, nem com a Casa Pia. Foi simplesmente assistir à sessão final do julgamento, como cidadão. Não ficou impressionado com as penas. “Até acho pouco”, diz, antes de entrar para o elevador.

O ex-casapiano Pedro Namora também deixa a sala de audiências. É cercado, responde a perguntas e escapa-se para uma varanda, para fumar um cigarro. Aí, diz ao PÚBLICO que está satisfeito mas que lamenta que as penas para aquele tipo de crime não sejam mais elevadas. “O mais importante era a condenação final”, afirma, no entanto. Já de manhã, Namora estava convencido de que haveria condenações. Logo depois de ouvir os factos dados como provados, saíra do tribunal emocionado, a chorar. Voltou à tarde medicado. “Tomei um calmante”, diz.

Alívio grande

No final, enquanto juízes e advogados discutem aspectos formais no término da sessão, a maior parte das vítimas volta a sair por onde entrou, por uma porta lateral junto à sala das testemunhas, longe dos jornalistas. Mas um dos ex-alunos resolve, porém, dar a cara. “Com esta decisão sinto um alívio muito grande. É a prova de que nós dissemos a verdade”, afirma Francisco Guerra, considerado uma testemunha-chave no processo, mas que até então se mantivera no anonimato. “Valeu a pena esses oito anos de sacrifícios”, completa.  Público

+Ler notícia: http://jornal.publico.pt/noticia/04-09-2010/disseramlhes-que-mentiam-mas-o-tribunal–deulhes-ontem-razao-20141643.htm

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